Meu Bairro... Moro Aqui: Mangabeira
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Pátio da Mangabeira |
Por: Anax Botelho
Fotos: Roberta Menezes
Na cidade, múltiplas
personalidades constroem o seu cotidiano e algumas já estão no subconsciente de
todos na Capital. Do comércio à cultura, a Zona Norte se destaca historicamente
pela autonomia e forte identidade local. Nesse espaço que começa a surgir na
movimentada Avenida Norte (a partir do Marco Zero), chegamos ao jovem bairro da
Mangabeira, pertencente à Região Político-Administrativa 3 (RPA 3), com cerca
de 7 mil habitantes.
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Nosso guia |
Nesta edição do Meu Bairro... Moro aqui, a Agenda Cultural do Recife caminhou por esse
bairro predominantemente residencial, que, graças às influências das
localidades vizinhas, entre elas Casa Amarela, Alto José do Pinho, Bomba do
Hemetério, Arruda e Tamarineira, detém uma rica vida cultural que, por vezes, mescla-se
com a dos arredores. No pátio da Mangabeira, começamos a jornada que tem como
ponto de partida o conhecimento, a educação e o esforço para construir um
bairro melhor. O nosso guia, o professor primário Luiz Carlos do Amaral, 25
anos morando no local, recolhe livros na comunidade com o intuito de continuar
construindo caixas-bibliotecas, como
nomeou, em locais públicos. O projeto ainda está em fase inicial, mas já conta
com três mil exemplares e o apoio da população para se tornar uma realidade na
Mangabeira – e quem sabe, em toda a Cidade, segundo o idealizador. Apaixonado
pelo bairro, afirma nosso guia: “Só me adéquo nesta região. É o melhor bairro e
não desejo sair daqui nunca”. Luiz canaliza sua esperança e suas atividades
para melhoria da comunidade através da educação. Um dos projetos dele é
realizar ainda este ano uma olimpíada de conhecimento com jovens, professores e
moradores do local.
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Igreja de Nossa Senhora de Fátima |
Ao continuar nosso passeio pela
região, logo percebemos a confusa questão dos limites geográficos dos bairros.
Em 1988, no processo de desmembramento de Casa Amarela, por meio do Decreto
Municipal n. 14.452/88, foram traçados os novos limites do antigo bairro,
resultando no surgimento de outros, como a própria Mangabeira e seu vizinho, o
Alto José do Pinho. No morro, onde as jovens comunidades são divididas, os
moradores só entram em consenso a respeito da sua localidade através do CEP e
da Praça do Alto, que, segundo nosso guia Luiz, é o ponto de referência
administrativa que separa os bairros irmãos. Ao conversar sobre o assunto com
as pessoas, notamos que essa questão acaba ficando em segundo plano, e que o
convívio social e cultural é o que de fato move a localidade.
Conhecer a rotina da Mangabeira
exige olhos voltados para a auto-organização. A Associação Amigos Nota 10,
criada em 2013, organiza as festas do Carnaval, do São João, entre outras. A
maior festividade, porém, que ocorre em outubro, é realizada pela Igreja de
Nossa Senhora de Fátima. A paróquia ainda possui grupos de caridade, de jovens
e está construindo uma quadra poliesportiva no local que, segundo o secretário
da paróquia, Thiago Corrêa, atenderá a toda a população. Nesse ambiente de
troca de relações pessoais, também exercem forte inserção social as manifestações
de matriz africana, como maracatus e afoxés. Um dos destaques é o Maracatu Nação Encanto da Alegria,
fundado em 1999, que promove diversas oficinas no bairro. Subindo o Alto, do
lado da Mangabeira, encontramos o Maracatu
Nação Estrela Brilhante, fundado em 1906, no bairro de Campo Grande, presente
na Mangabeira há 20 anos. Com cerca de 300 membros, o maracatu está credenciado
como Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura e tem uma produção bastante
singular. O integrante e artesão Jair Bernardino dos Santos produz o próprio
material do Estrela Brilhante com
recursos naturais, utilizando a madeira da macaíba. O local ainda realiza
oficinas de produção dos instrumentos e aulas de execução. Nascida e criada na
região há 60 anos, Marinalva Maria dos Santos, que preside e exerce o posto de
rainha no Maracatu, não esconde o orgulho da localidade onde mora. “Aqui é um
bairro onde todo mundo gosta de cultura”, afirma. Outro Ponto de Cultura da
região, o Sankofa faz parte da casa de matriz africana
Ylê Asé Ayrá Adjási que traz o Afoxé Ylê
de Egbá como grupo de resistência da cultura negra desde 1986, além de
realizar, todo primeiro domingo do mês, o projeto Kizomba – uma festa voltada
para a resistência cultural da comunidade. Segundo o fundador Doté Dito
D’Osóòsi, nomes importantes da cultura pernambucana já frequentaram o afoxé,
como Chico Science, os grupos Cordel do Fogo Encantado, Mestre Ambrósio, entre
outros.
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Maracatu Nação Estrela Brilhante |
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Afoxé da região |
Foi desse jovem bairro que a Agenda Cultural percorreu as ruas e conversou
com os moradores para apresentar mais uma face da Cidade. Entender as linhas
imaginárias que dividem os bairros originados de Casa Amarela é uma constante
nas conversas dos recifenses. Buscar uma identidade, principalmente cultural e
afetiva, porém, é um exercício diário de toda a população dessa área, seja da
Mangabeira, do Alto José do Pinho ou de Casa Amarela. A Cidade se transforma
sem esquecer suas histórias e vidas apaixonantes. Nessa geografia em permanente
processo de crescimento, a identificação das pessoas se une em um único nome:
Recife.
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