segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Meu bairro... moro aqui

Cajueiro
Texto Raquel Freitas
Fotos Vitor Chaplin


Praça Tobias Vitorino

Nascido no limite entre Recife e Olinda, o bairro que visitamos nesta edição da Agenda Cultural do Recife deixou a timidez da sua existência para nos apresentar um lado bem peculiar dos seus confins. Aparentemente, assim como os outros bairros, Cajueiro é um local comum. Sem atrativos a olho nu, ele chega a passar despercebido aos nossos olhares. Mas, uma vez convidado a entrar, a vontade de sair é quase remota. Isso porque as ruas, as praças, os olhares dos moradores, as casas e a paisagem quase que bucólica é um chamado para resgatarmos uma das relações mais genuínas da vida: o contato com o próximo. Nesta “nova” Era, onde as pessoas se isolam do contato humano, talvez pela demanda cotidiana, Cajueiro nos dá um bom exemplo de como agregar essas atividades à nossa rotina.


Principal acesso ao bairro - Av. Sebastião Salazar
Localizado na Zona Norte do Recife, Cajueiro faz fronteira com outros bairros, como Campina do Barreto, Fundão e Porto da Madeira. É passando por ele que se pode ter acesso à Olinda com o seguinte itinerário: Avenida Beberibe com atalho pela Avenida Cidade do Monteiro e chegada pela Avenida Presidente Kennedy. Mas o nosso trajeto para um pouco antes, na entrada da Avenida Sebastião Salazar – um dos principais acessos ao bairro. É lá que iniciamos a busca pelas histórias construídas aos arredores daquela unidade mínima de urbanização.

Para iniciar a nossa viagem pelo universo simples e particular dos cajueirenses, seremos guiados pelo carnavalesco e morador do bairro há 64 anos, Everaldo Albuquerque. Se considerarmos que o tempo de moradia seja equivalente às histórias, que serão rememoradas, teremos pela frente momentos singulares e cruciais que construíram diretamente o bairro (quando este era ainda conhecido como Sítio do Cajueiro pertencente ao João Valente). Confundido por vezes com Cajueiro Seco do município de Jaboatão dos Guararapes, os dois bairros ficam ao extremo da cidade. Agora, com essa questão já esclarecida, podemos então embarcar pelas ruas e vielas desse local tão sossegado e familiar, cujo nome é somente Cajueiro.

Restaurante Pioneiro da Fava
Com o roteiro dos lugares nas mãos e já com as histórias emplacadas, o nosso guia nos leva até o restaurante Pioneiro da fava, um dos mais antigos do bairro com aproximadamente 40 anos de tradição, localizado ainda na entrada de Cajueiro (Av. Sebastião Salazar). “Marcos, um amigo meu, tinha uma barraquinha aqui de lado, passou pra aqui [local atual] e botou [local para vender] verdura, daí ele fez A fava. Depois veio Júnior, amigo nosso também, com uma visão bem maior e criou isso aqui”, relembra Everaldo.

Associação Cajueirense de Atletismo (ACA)
Ainda na continuação da mesma Avenida, seguimos em direção à Associação Cajueirense de Atletismo (ACA). Criada desde 1949, o espaço surgiu a partir de uma inquietação de Dona Alice Albuquerque, mãe de Everaldo, juntamente com a comunidade. Mas antes de tornar este sonho possível, os amigos (entre eles Eduardo Rolim, Seu Arlindo e a própria Dona Alice), que estavam juntos nessa empreitada, decidiram fazer um acordo: “Os primeiros [que tiveram a ideia] irão colocar os nomes em um baú e enterrar em um determinado lugar no ACA que só a gente saiba”, fala Everaldo da suposta cápsula do tempo criada pelos fundadores. “Alguns dizem que é aqui no centro, outros dizem que é ali, mas ninguém sabe onde é, inclusive mamãe me contou isto”, garante. O intuito em criar o espaço foi para que ele estivesse à disposição da comunidade e é dessa forma que ele é usado até hoje. “Aqui tem festas, tem São João, tem Carnaval.O presidente Jordão e o vice Quel(apelido) sempre realizam festas”, assegura.  “Sempre que os moradores precisam para fazer um batizado, um casamento ou uma reunião, eles cedem. Até porque é bom para trazer movimento”, reafirma a importância da associação para os moradores.

Após a visita ao ACA, partimos para a praça que carrega o nome e a história de um antigo morador: Seu Tobias. Em frente à praça, ainda mora sua família. Ao chegarmos na antiga casa, logo houve a mobilização dos integrantes para saber a real data de registro da Praça Tobias Vitorino. Depois de um telefonema da vizinha para um dos seus filhos, ficamos sabendo que a sua construção se deu dois após o falecimento do patriarca Vitorino, ou seja, há 16 anos. “Ele fez a planta da praça. O sonho dele era realizar esta praça. Então desde o momento que ele não alcançou, tomamos as devidas providências para realizar o sonho dele”, afirma a filha Marilene Vitorino.           

Igreja de São Judas Tadeu
Assim como a praça, a capela tem igual relevância para uma comunidade. Em Cajueiro não é diferente. A Igreja de São Judas Tadeu está localizada, atualmente, na Sebastião Salazar, mas nem sempre residiu neste endereço. “A capela era ali, onde hoje é um depósito de vela, na Rua Luiz Clericluzzi. Dali, o padre Valdenito, que morava ao lado, pegou uma cruz e colocou no centro do terreno que foi doado à capela. Foi quando começou as procissões para ajudar a construir a igreja”, afirma o ativo morador. Logo na outra esquina, a mesma do depósito de vela Santo Antônio, o extinto Cine Cajueiro dá espaço à uma igreja evangélica. “Eu assisti muitos filmes aqui. Como Os Três Patetas, O gordo e o magro”, conta animado. Na infância de Everaldo, o cinema era a grande novidade do bairro. Naquela época, a mesma sensação que o circo trazia à cidade, o cinema proporcionava a mesma intensidade de curiosidade pela novidade que o cercava. “Antigamente, tinha um homem bem brabo pela redondeza chamado Juareiz. Ele gostava muito de criança. Quando tinha a festa de São Judas Tadeu, a gente ficava na frente do cinema só esperando ele chegar. Quando ele chegava, a gente pedia para entrar e ele dava as ordens para o porteiro deixar as crianças entrarem”, conta Everaldo a respeito das peripécias infantis.

Extinto Cine Cajueiro dá espaço à
uma igreja evangélica
Do outro lado da Rua Luiz Clericluzzi a primeira padaria do bairro recebe o nome de Padaria e Panificadora Cajueiro – ainda com o mesmo nome de origem. Segundo o atual dono, Seu Albino, os primeiros donos, Antônio Luiz Paiva e Luiz Paiva, eram também portugueses e ficaram de posse do empreendimento por aproximadamente 30 anos. Já com o segundo dono, Seu Albino, ele vem mantendo a tradição há mais de 20 anos.

Escola Jarbas Pernambucano
Cercado por histórias, cada parte de Cajueiro é digno de uma parada. Saindo da autêntica padaria cajuerense, com ares portugueses, aportamos na Praça do Seu Dioclécio, mais conhecida como Praça do Jarbas. A praça ganha forma no cruzamento da Sebastião Salazar com a Rua Barão de Tamandaré. A nomeação da Praça do Jarbas se deu pela existência do colégio na mesma rua:Colégio Jarbas Pernambucano. Mas, nem sempre, aquela praça foi um recanto de encontros. Ali, residia um dos primeiros moradores de Cajueiro, o Seu Dioclécio. “Aqui, tudo era um lamaçal só por conta do Rio Beberibe. Aqui, morava Seu Dioclécio, embaixo da casa dele tinha uma cacimba”, conta o guia.

Travessia pelo Rio Beberibe
Assim como a casa do Seu Dioclécio um dia foi banhada pelas águas do Rio Beberibe, o bairro ainda tem esse privilégio. O Beberibe não é conhecido como um cartão postal do Recife, mas ele tem tanta importância quanto qualquer ponto turístico. Atualmente sujo e maltratado, o rio quer ser visto, mas não consegue. Pelos arredores, os matos e o lixo tomam conta da sua pouca existência. “Esse rio era muito limpo. As águas eram límpidas, tinha muito pé de caju ao redor dele, a gente jogava uma moeda e dava para ver ela no fundo. Agora, vocês veem como estão”, lamenta Everaldo. É nesta paisagem habituada que os moradores ergueram suas casas. A vista poderia ser melhor se o rio fosse bem cuidado, mas infelizmente a imagem do sofá beirando o rio pode ser a única fotografia desse momento. Muitos não refletem, mas é de lá que famílias tiram seus sustentos. É através da margem do rio que muitas pessoas são transportadas, diariamente, do Recife até Olinda por meio da canoa improvisada da Dona Maria Aparecida,que é conduzida pelo remador Alexandre. “Estamos aqui há quase trinta anos fazendo benefício ao povo”, afirma Aparecida, que há esta hora já está em cima da canoa conosco. Seu Everaldo ainda completa: “Antes de existir essa passagem aqui, só tinha a passagem lá no Cabo Gato”(Espaço cuidado pelo morador, cuja identidade era conhecida como Cabo Gato. Ele dividia o espaço no rio para os homens e as mulheres tomarem banho).

Depois do passeio navegante pelo rio, seguimos sentido à Rádio Jovem Cap, antiga Rádio Capibaribe. Localizada em frente à extinta Praça Capibaribe, que hoje está sendo construída a Academia da Cidade, a rádio foi inaugurada em 1960. Após sete anos de transmissão, o nome foi modificado para o atual devido à efervescência do movimento da Jovem Guarda. Foi a partir dessa premissa que a nova rádio, com o novo nome, instaurou-se, modificando a sua programação com foco em um público mais jovem. Pela redondeza desse mesmo local, outros empreendimentos dão vida a demanda necessária do dia a dia. Na mesma rua da rádio, Rua Cel. Urbano Ribeiro de Sena, o primeiro mercadinho abastece há 29 anos as famílias cajueirenses: o Mercadinho Capibaribe, cujo dono é o antigo morador Coronel Jerônimo Tavares.

Nosso guia Everaldo Albuquerque
Chegando ao fim da nossa expedição, encontramos duas Praças que recebem o nome da avó e da mãe do Everaldo. A primeira foi a Praça Maria Pereira, criada por Dona Alice, em homenagem a sua mãe. Situada no cruzamento das ruas Maria Cristina T. de Souza e a Couto Soares, ela é conhecida como a Praça do Terminal. Mas assim como a ACA, o espaço é fruto da luta de Alice Albuquerque por um lugar onde se pudesse criar e apresentar peças de teatro. Segundo Everaldo, sua mãe alegava falta de um lugar “para fazer os espetáculos e também as apresentações de pastoril”.

Assim como fez Dona Alice Albuquerque por Dona Maria Pereira, seu filho Everaldo fez o mesmo. Com o intuito de deixar registrado o nome da mulher que tanto fez por Cajueiro, ele decidiu estruturar um espaço, localizado na bifurcação da Rua Couto Soares com a Adolfo Simões, que trouxesse benefícios de lazer para a comunidade. Conhecida como Praça da Rodinha, devido a uma mesa de madeira construída por eles em formato circular, o nome e a história de Dona Alice Albuquerque passa a fazer parte dos momentos de diversão dos moradores, seja numa partida de dominó ou numa simples conversa.
                                                                                                              
Praça Alice Albuquerque
Depois dessa visita, Cajueiro nos deixa a mensagem de que um bairro não é uma construção de casas consecutivas. A definição de bairro vai muito além desses clichês.  Cajueiro em sua essência nos mostrou um bairro sinônimo de comunidade, local onde as pessoas se reúnem, encontram-se e se renovam a cada ganho. É com esse espírito familiar que Cajueiro dá as boas-vindas ao novo ano, fazendo-nos refletir sobre a relação que devemos manter com o próximo.

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