Da inspiração à publicação: os caminhos da edição de livros no Recife

Texto e fotos Felipe Mendes e Raquel Freitas

Terra fértil para a literatura, Pernambuco há muito já inscreveu sua marca na história das letras brasileiras com uma lista enorme de autores consagrados e respeitados nacional e internacionalmente. Cantada incessantemente em verso e prosa por incontáveis artistas, a cidade do Recife por vezes assume ares de cenário livresco e inspira continuamente novos autores a criar enredos, personagens, tramas e versos, alguns destinados a deixar sua marca na vivência literária do país.
A riqueza da produção literária se completa apenas quando a obra é publicada e chega ás mãos do leitor. Para isso, é necessário trilhar muitos caminhos que conduzem o momento da criação até a sua concretização: a impressão do livro. A maneira mais tradicional para um escritor dar vida á sua obra é buscar editoras que viabilizem a publicação do texto, sua distribuição e divulgação.


Uma editora que se destaca há muito tempo no mercado editorial pernambucano é a Bagaço. Diferenciada exatamente por fazer questão de se identificar como uma editora local, que fala das coisas da terra, “a Bagaço é de Pernambuco, é legítima”, afirma Inês Rocha Coury, da editora. Criada há 26 anos, a editora possui atualmente uma gama de títulos variados que inclui de livros educacionais, didáticos e paradidáticos, a livros de conto, crônica, poesia e romance.
A atividade editorial da Bagaço, entretanto, não é suficiente para atender a demanda de textos e autores. Inês explica que existem hoje duas formas de se confeccionar o livro na Bagaço: “uma nós bancamos como editores. A Bagaço faz o livro, comercializa e paga direitos autorais a partir das vendas. A outra forma é a chamada ‘edição independente’: a gente presta um serviço de projeto gráfico e o autor banca o seu livro.”
A opção apontada pela representante da Bagaço, chamada comumente de “edição do autor”, tem se tornado cada vez mais comum no mercado editorial contemporâneo. Cansados ou desiludidos de se apertar no parco espaço para a publicação de livros pela via da editora tradicional, muitos escritores têm reunido recursos próprios, pagando pela tiragem do seu livro. A maior expoente desta forma de publicar é a Editora Livro Rápido.
Aproveitando-se da tecnologia de impressão a lazer que o grupo Elógica já dispunha no início da década, Tarcísio Pereira pensou em livrar os autores das grandes tiragens necessárias para impressões em offset e possibilitar a impressão de tiragens mínimas, de até 20 exemplares. “A Livro Rápido surgiu de uma necessidade”, afirma Tarcísio, que possui uma longa história de dedicação ao livro iniciada como vendedor e que atingiu seu auge comandando a histórica Livro 7, na Rua Sete de Setembro, centro do Recife.
Tarcísio já havia introduzido novos conceitos na comercialização de livros na Livro 7, que dispunha de uma “praça”, onde os compradores podiam folhear a vontade o exemplar que quisesse, prática hoje habitual em qualquer livraria. E inovou novamente em 2002, ao fundar a Livro Rápido. “Temos hoje mais de três mil títulos”, ressalta Tarcísio, completando: “e o preço do livro quem determina é o autor”. Uma mistura de editora com gráfica, a Livro Rápido publica uma profusão de diferentes tipos de obras, literárias ou não.
A empresa oferece ainda uma assessoria editorial, que inclui do conteúdo ao aspecto gráfico, além da impressão. Essa opção é muito comum aos poetas, seja aqueles mais aguerridos e militantes, seja os sem grandes pretensões, que muitas vezes “apenas” escrevem e nutrem o desejo de ver seus textos publicados, ainda que em pequenas tiragens e às vezes, só para familiares e amigos.
A grande demanda por publicação da intensa produção literária pernambucana, que não encontra suficiente espaço pelas vias mais tradicionais, busca e cria novos espaços. E esses espaços vêm sendo ocupados por editoras alternativas como a Livrinho de Papel Finíssimo, que entrou no mercado editorial como resultado de um núcleo de resistência ao teor comercial de outras editoras.
O gatilho inicial para a criação da editora foi a produção de fanzines, forma de publicação bastante despretensiosa, em que as condições técnicas nada sofisticadas são compensadas pela criatividade no aspecto gráfico e no conteúdo. Sabrina Carvalho, da Editora Livrinho de Papel Finíssimo, conta que as primeiras publicações eram fotocopiadas: “os meninos moravam no Iraq e lá tinham uma máquina de xerox”, explica. O Iraq é um misto de república e bar que abriga diferentes eventos, reunindo estudantes e artistas.
Entre os “meninos” citados por Sabrina estava o designer e músico Camilo Maia, único remanescente do grupo que criou a editora. Ela também ressalta que a participação da Livrinho no Circuito Experimental do Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), em 2007, trouxe a necessidade de mais profissionais e resultou em uma atuação mais consistente da editora.
A consolidação da iniciativa ampliou seu leque de possibilidades e campo de atuação. A partir daí, a Livrinho começou a oferecer uma assessoria editorial que auxilia o autor na publicação de sua obra com serviços como revisão, impressão e conteúdo gráfico. Essa abertura fez perceber que seu público não é composto apenas por quem não tem espaço, mas também por quem procura uma forma diferenciada e ousada de publicação. “O que se vê é uma procura tanto de gente que já está no ramo editorial, como a Rosinha Campos, e também de artistas em geral que querem colocar sua arte no papelzinho”, afirma Sabrina Carvalho.

Os autores
Modo escolhido por muitos autores, a publicação “de autor” se tornou uma opção independente de publicação e vem atraindo cada vez mais escritores. O poeta Malungo já imprimiu três edições do seu livro O Terceiro Olho usa lente de contato, a última delas com a Editora Coqueiro, que também oferece serviços de editora e gráfica. Ainda que tenha pago pelas impressões, Malungo  avalia positivamente a realização da publicação: “Meu lucro foi ficar mais conhecido, divulgar minha poesia e poder aparecer em entrevistas, jornais”, afirma, lembrando que a maior parte desses livros, em geral, não são vendidos, mas entregues a amigos, colaboradores, jornalistas, etc. 
Outra utilidade de se ter uma primeira edição pronta é poder enviar um trabalho
completo, eventualmente até com alguma repercussão, para editoras de porte, que possam realizar uma distribuição muito mais abrangente do livro. Essa nova forma, que substitui o não tão antigo hábito de se mandar originais para editoras, pode ser exemplificada na obra Roliúde, de Homero Fonseca, publicada pela Editora Record, uma das maiores do Brasil. A primeira edição da obra – com o título Cinema falado – foi feita na Livro Rápido.

As editoras públicas
O poder público também atua no mercado editorial com a missão de publicar livros de interesse cultural possibilitando a circulação das obras. A mais antiga editora pública do Estado é a Companhia Editora de Pernambuco – CEPE, fundada em 1924. Com um parque gráfico próprio e equipamento moderno, a CEPE desenvolve uma atividade editorial significativa e diversificada, indo muito além de sua atribuição oficial primária, a publicação do Diário Oficial do Estado. Entre essas publicações destacam-se a revista Continente Multicultural e o Suplemento Cultural, encartado no próprio Diário Oficial desde 1986.
Outra editora pública com uma longa história é a Editora Universitária, criada em 1955. Apesar da óbvia segmentação de sua atuação, “a editora tem a missão não só de publicar trabalhos acadêmicos, mas também tem a finalidade de atender à comunidade”, como explica a professora de Letras e Lingüística e Diretora da Editora Universitária, Maria José de Matos Luna. Ela contabiliza cerca de 100 títulos publicados pela editora anualmente, e ressalta que a distribuição dessas obras acontece tanto via livrarias quanto através de parcerias com universidades de todo o país, viabilizadas pela Associação Brasileira de Editoras Universitárias – ABEU, da qual Maria José é a representante regional pelo Nordeste.
A editora também possibilita a mediação da obra em outros estados. A obra O teatro de Anchieta, de Joel Pontes, será lançada este ano pela Universitária na Bienal do Livro no Rio de Janeiro, em setembro. As obras publicadas pela Universitária são escolhidas através de editais específicos que atendem a diferentes áreas da produção acadêmica, como textos educativos, teses e dissertações. A Universitária também possui parque gráfico próprio, que é utilizado por estudantes para impressões diversas, a exemplo do jornal-laboratório Crispim, elaborado pelos estudantes de Letras da UFPE.
Também com uma atividade editorial, a Fundação de Cultura Cidade do Recife construiu, nos últimos anos, uma política de editoração focada no acesso dos autores ao mercado, publicando diversas coletâneas – de poesia, conto, crônica – e coleções temáticas. “A obra coletiva é democrática, em um só espaço podemos beneficiar vários escritores”, afirma Heloísa Arcoverde, Gerente de Literatura da Fundação de Cultura por doze anos. Ela afirma também que, para publicar uma obra, “o primeiro critério é atender ao interesse público e o segundo é a qualidade editorial”. Heloísa, que está deixando a gerência, avisa que é uma preocupação constante o alto padrão gráfico das publicações: “tem que ter tanta qualidade quanto uma publicação comercial”, resume.
Quem assume a partir desse mês a Gerência de Literatura da Fundação de Cultura é a jornalista Carolina Leão, que opina: “Uma boa administração não se encerra quando se troca o gestor, é importante pensar em ações que darão frutos a médio e longo prazo”. Para a nova gerente, é importante se pensar em uma gestão interdisciplinar na qual se estabeleça um diálogo com várias instâncias da sociedade civil, como universidades e entidades de representação de classe, com o intuito de identificar novos autores, tendências e demandas. “Temos que dialogar com a cidade que a gente vive hoje. Sair um pouco da visão idílica e ‘romântica’ e torná-la contemporânea. Isso significa também abrir mais para autores novatos”, reflete Carolina.
Uma das ações mais significativas da Gerência de Literatura é a realização do Festival Recifense de Literatura: A Letra e a Voz, que acontece este mês pela nona vez. O festival – que já se firmou no calendário de eventos culturais da cidade – promove encontros, debates, mesas redondas e um intercâmbio entre autores, editores e comerciantes de livros, culminando na Festa do Livro. (Ver programação)

As novas tecnologias
Um dos assuntos que vem circulando cada vez mais no universo de quem trabalha com o livro é a mudança causada pelas novas tecnologias. “A gente tem que estar atento ao futuro, o livro digital está aí”, diz Heloísa Arcoverde, apontando que o novo suporte está atrelado à reformulação de aspectos mercadológicos do livro. Essa mudança não se caracteriza como uma ruptura, mas pela convivência cada vez maior entre livros de papel e digitais, até que um suplante o outro.
Para Heloísa, as novas tecnologias abrem caminhos para novos leitores e as próximas gerações não sentirão falta do papel. Inês Rocha, da Editora Bagaço, afirma que “a mudança tecnológica está acontecendo e nós estamos nos preparando para isso”. Quem já se aproveita das novidades tecnológicas em seu trabalho é Tarcísio Pereira, da Livro Rápido. Ele montou uma livraria virtual que possibilita a venda por demanda de até um exemplar por vez de cada obra. A iniciativa encurta a distância entre autores e leitores e evita tiragens encalhadas, além de facilitar uma distribuição muito mais ampla do livro.
Outra forma cada vez mais comum de expressão literária são os blogs. Espécie de diário público cibernético feito por qualquer pessoa sem custo, o blog oferece a possibilidade de se “publicar” os textos de forma simples e aproxima autores e leitores em torno dos mesmos interesses, atraindo tanto escritores experientes e conhecidos como iniciantes. “Os autores estão migrando para outros suportes”, diz Carolina Leão. No entanto, ela avisa que o livro de papel ainda ocupa um lugar central na vida de quem produz literatura: “apesar do livro ser uma coisa cara, ainda é a instância de legitimação do autor”, completa.
São muitos os caminhos para a publicação de um livro em Pernambuco. Mesmo com todas as dificuldades, um autor hoje dispõe de meios para publicar sua obra, ainda que sem o amparo econômico de grandes editoras. A evolução tecnológica oferece novas oportunidades e também novos desafios para quem vive ou pretende viver de sua produção literária. No meio de tantas dúvidas sobre o futuro do livro, fica uma certeza: existem muitos escritores produzindo e, mais importante, leitores interessados em consumir essa produção.




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