Luana Tavares projeta força da mulher negra e ancestral em álbum de estreia


 
Disco da integrante da Mostra Reverbo chega às plataformas em 1º de outubro com direção de Juliano Holanda


Moagem sintetiza em uma única palavra a condensação do mosaico cultural, afetivo, social e histórico processado artisticamente pela pernambucana Luana Tavares no primeiro álbum da carreira. A cantora da cidade de Goiana, na Zona da Mata Norte, mói feridas raciais e ancestralidades para fazer do canto uma reação melódica pela valorização da identidade e contra o preconceito. Mói opressões de uma região subjugada pela monocultura colonial para exaltar a resiliência de povos marcados pela bravura e pelo vigor criativo. E extrai dessas sinuosidades atemporais com reflexos na pele e na alma uma reconstrução chamada “Luana Tavares”, nome de batismo do disco marcado para o dia 1º de outubro em todas as plataformas digitais.


O álbum de Luana, integrante da Mostra Reverbo, reúne nove músicas autorais (seis delas inéditas) e conta com participações de artistas prestigiados na cena musical pernambucana tanto pelo ímpeto criativo como pela expressividade artística e a verve representativa. As parcerias enredam a cantora e compositora Isaar (voz), a cantora e atriz Gabi da Pele Preta (voz), o cantor e compositor Jonatas Onofre (piano), o músico Hélio Abulidu (voz) e o compositor e cantor Juliano Holanda (voz, baixo e violão) - também produtor e diretor musical do disco, cuja produção artística é assinada por Mery Lemos. A percussão fica a cargo de Gilú Amaral, o trombone, de Nilsinho Amarante e as vozes do coro ainda incluem Mery, Mayara Pêra e Vinícius Barros.


“É um disco em que trago um pouco mais de pulsação, de força. Conto sobre como essa bagagem de ser da Zona da Mata me atravessa e faz ver o mundo. As inquietações permanecem: de ser negra, de fazer minha poesia, do protagonismo negro. A proposta é enxergar outra Luana, construir outra mulher que eu ainda construo sempre a cada dia, com outra tônica, por esse momento da minha vida. Tenho a lua muito presente na minha vida e tenho faces que gostaria de descobrir. Esse disco vem dessa mistura, dessa vontade de dizer outras coisas, juntar pessoas. Eu não estou só, nunca estive - sempre tive presente a minha ancestralidade”, a cantora explica.


O álbum reúne nove músicas autorais (seis inéditas) e conta com participações de artistas prestigiados. Com desenhos melódicos muito marcados pela percussão, dialoga com signos musicais da presença africana, da música de terreiro e da sonoridade da Zona da Mata norte pernambucana, berço de Luana e Juliano. Na contramão de álbuns que compilam singles independentes, “Luana Tavares” mantém um fio condutor. “É um disco que conta uma história. Eu acho que era importante Luana se firmar como compositora, pois ela tem um trabalho muito complexo de criação”, defende Juliano.


A miscelânea construtiva torna Luana Tavares - disco e pessoa - a foz de uma pluralidade percebida nas faixas pela variedade de temas, embocaduras, cadências rítmicas, letras e reflexões. A cantora transita entre encorajamentos subjetivos de autoaceitação feminina a partir da força ancestral, elaborações sentimentais com alusões a referências urbanas, cativações maternas adornadas com aspectos da origem afro, exaltação ao poder da territorialidade sob inspirações regionais e desventuras amorosas atravessadas pelo desejo dimensionado por elementos da natureza. Estão presentes a espiritualidade e a cultura afrobrasileira, as raízes da Zona da Mata, a luta antirracista, a feminilidade, os afetos e dilemas humanos - Luana canta o coração e o mundo a partir das próprias dores e delícias.


“Luana Tavares” tem incentivo do Funcultura (Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura), por meio da Fundarpe e da Secretaria de Cultura do Governo de Pernambuco. Sucede “Boca da Mata” (registro ao vivo de estreia, em 2022, ancorado na ancestralidade e nas referências da Zona da Mata) e “Outro Astral” (EP e álbum visual, de 2025, marcado por uma sonoridade mais diversificada e em expansão). A cantora pinçou para o novo disco, entre os singles já lançados, as músicas “Boca da Mata” e “Tomara” (composições próprias) e “Minha Missão” (coautoria com Gabi da Pele Preta). As inéditas são “Sabença”, “Espelho” e “Onde está meu coração”, de autoria própria, e “O amor vai nos dizer” (com Jonatas Onofre e Revoredo), “Lama” (com Juliano Holanda) e “Flerte” (com Helio Abulidu).


O conjunto colore sonoramente a exuberância artística das canções e dá múltiplos tons a uma mensagem de superação contra marginalizações de gênero, cor e origem embutida no disco. “Isso se reflete na minha criação de uma maneira que eu não deixo que nada me atropele. Tudo é desaguado nas composições. Consigo esbravejar contra tudo que me atravessa. Fazer esse disco faz parte disso, deixar um suspiro pra quem tá fazendo. A gente não pode morrer enquanto está tentando viver”, diz. Luana (e a mata) é para ouvir.


Serviço

“Luana Tavares”, de Luana Tavares

A partir de 1º de outubro nas plataformas digitais


FAIXA A FAIXA


Sabença - É quase uma conversa, súplica, que vai buscar nas palavras a sabedoria, com musicalidade marcada pela percussão e os instrumentos de sopro, muito presentes na Zona da Mata pernambucana. As palavras se tornam o ritual, a sabedoria sendo a regente, essa mãe que dá essas respostas.


Flerte - Parceria com Hélio Abulidu, é uma canção mais sensual, que traz desejos e troca de vontade, em meio à sensualidade da cumbia e música latina. É um retrato da mulher que avança. Traz mulher com outra pele, feminino exalando, energia de conquista, jogo do flerte.


Minha Missão - Deto com Gabi da Pele Preta, mantém a sonoridade latina. É uma canção de autoaceitação, sem muitas cobranças. “Investir na gente é o caminho menos árduo de existir enquanto mulher negra”, crava Luana.


Espelho - É mulher diante de si, já se enxerga, quer reafirmar e aterrar a descoberta de si. Uma das mais representativas do álbum, esse ijexá é uma espécie de oração sobre força e valorização de si e inclui uma potente mensagem recitada pela mãe biológica de Luana.


Onde Está Seu Coração - É canção que convida a refletir sobre ilusão, verdade, morte, o que é eterno. Traz o coração como bússola norteadora da existência e versa sobre estar presente em si para que nada seja em vão.


Boca da Mata - Coloca o demarcador desse local de onde Luana é, com uma força imagética grande dos elementos que a norteiam. A natureza é muito presente. E é essa boca que conta, que canta, que denuncia. Instrumentalmente, é a mais robusta, com participações de todos os convidados.


Tomara - Com participação de Isaar, é um samba de roda sobre desejo, sobre a gente ser o outro e o outro ser a gente, e sobre precisar desejar coisas boas para quem está no caminho. É a música mais solar. 


Lama - Parceria com Juliano Holanda, carrega um tom de desabafo e questionamento sobre sair da Zona da Mata e ir para um lugar de asfalto e de concreto, mas sem perder as referências. “Você acaba sendo espremido, questionado, colocado no canto, nas margens. Você não é visto totalmente, por completo. Uso a lama no sentido figurado, coisa que as pessoas não querem tocar, se misturar. Por ter vindo de outro lugar, estar aqui e me sentir acuada, afastada, meio às margens. E a lama tem a força de fazer brotar coisas boas e bonitas. Você aprende a conviver sem deturpar sua imagem”, reflete.


O Amor Vai Nos Dizer - Parceria com Jonatas Onofre e Alexandre Revoredo, sintetiza tudo de uma maneira suave e bonita com versos sobre transformação, mudança e não se perder do caminho. O amor surje como a linha que entrelaça tudo isso e que faz brotar novas chances de de viver.


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