A partir do clássico de João Ubaldo Ribeiro, ‘Viva o Povo Brasileiro (De Naê a Dafé)’ abrirá 22º Festival Recife do Teatro Nacional, seguido pelo também musical Azira’i
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| Viva o Povo Brasileiro | Foto Marcelo Rodolfo |
Espetáculo musical Viva o Povo Brasileiro (De Naê a Dafé), produzido pela Sarau Cultura Brasileira, será apresentado nos dias 16 e 17 de novembro, no Teatro do Parque. Produtora também leva ao festival o solo autobiográfico 'Azira'i', sobre a primeira mulher pajé de reserva indígena do Maranhão, dias 18 e 19, no Teatro Apolo. Os dois espetáculos têm no Recife seu primeiro palco após estreia no Rio de Janeiro. Os ingressos são gratuitos
'Viva o Povo Brasileiro', uma das mais importantes obras do escritor João Ubaldo Ribeiro, ganha inédita versão musical para o teatro, com produção da carioca Sarau Cultura Brasileira. O espetáculo foi escalado para abrir o 22º Festival Recife do Teatro Nacional, em 16 de novembro, no Teatro do Parque, com segunda apresentação no dia seguinte, ambas às 19h. O público do Recife será o primeiro a assistir à montagem após sua celebrada temporada de estreia no Rio de Janeiro.
Igualmente tendo a capital pernambucana como primeiro palco depois de casa, 'Azira'i' será encenado dias 18 e 19, às 18h, no Teatro Apolo. A obra reflete sobre as memórias da atriz Zahy Tentehar que, neste solo autobiográfico, resgata sua vivência com a mãe, Azira'i, a primeira mulher pajé da reserva indígena de Cana Brava, no Maranhão.

Azirai 1 credito Daniel Barboza
Os ingressos para as duas montagens são gratuitos e devem ser retirados na bilheteria dos teatros uma hora antes de cada sessão.
“É com muita alegria que a Sarau estará presente no 22º Festival Recife do Teatro Nacional. O musical ‘Viva o Povo Brasileiro (De Naê a Dafé)’ abrirá esta edição do festival, seguido do monólogo ‘Azira’i’. Dois espetáculos que estrearam recentemente no Rio de Janeiro e estão iniciando suas trajetórias pelo país. Dois projetos que falam da nossa formação, da nossa identidade brasileira. E o Festival Recife do Teatro Nacional há 22 edições tem a importante missão de difusão e melhor distribuição dos bens culturais do nosso país. Estamos muito felizes e honradas com o convite”, celebram Andréa Alves e Leila Maria Moreno, da Sarau Cultura Brasileira.
VIVA O POVO BRASILEIRO (DE NAÊ A DAFÉ)
Clássico do escritor João Ubaldo Ribeiro, 'Viva o Povo Brasileiro' deu ao autor o Prêmio Jabuti quando lançou o livro. Poderosa, a publicação foi enredo da Império da Tijuca em 1987. Agora, o romance ganha uma inédita versão musical para o teatro, produzida pela Sarau Cultura Brasileira. ‘Viva o Povo Brasileiro (De Naê a Dafé)' conta com 30 músicas originais compostas por Chico César, a partir de letras inspiradas ou que utilizam parte textual da obra de Ubaldo. A direção musical e trilha original são de João Milet Meirelles, da banda BaianaSystem. A pesquisa para a montagem teve início na investigação de doutorado feita na Universidade de Lisboa pelo diretor André Paes Leme, que já adaptou com sucesso, da literatura para o teatro, ‘A Hora da Estrela ou O Canto de Macabéa’, ‘A hora e vez de Augusto Matraga’ e ‘Engraçadinha’.
O desejo de falar do que seria esse povo brasileiro a partir da ótica crítica e do humor de João Ubaldo Ribeiro provocou o nascimento do projeto. "Não há possibilidade de entender o povo brasileiro sem compreender que todos nós somos o povo brasileiro, desde os povos originários até os imigrantes que chegaram muito tempo depois. Criamos esse espetáculo, que praticamente pega um terço do livro, mas traz a essência da obra ligada à ideia de ancestralidade, de espiritualidade, da luta contra a escravidão, por uma igualdade e justiça social. O texto é especialmente conectado à força feminina, que é algo muito forte a partir da personagem da Maria Dafé, que é a grande heroína", diz André.
No palco, três músicos e dez atores que interpretam, cantam e tocam. Além do elenco fixo, cada cidade por onde o espetáculo passa ele ganha um coro composto por atores iniciantes/estudantes locais, que ajudam a dar vida a essa epopeia.
Chico César conta que este é seu terceiro trabalho com a Sarau, depois de ‘Suassuna – O Auto do Reino do Sol’ e ‘A Hora da Estrela ou O Canto de Macabéa’. “Para compor as músicas, eu parti da palavra do escritor e busquei a sonoridade da escrita. Trouxe muito da minha formação intuitiva da música negra, brasileira, baiana, porque o livro se passa em Itaparica e Salvador. Fiquei feliz quando soube que era o João Meirelles quem seria o diretor musical, porque o BaianaSystem é o grupo com maior expressão dessa contemporaneidade da música negra brasileira", aponta o artista.
Em seu segundo trabalho com o teatro musical, João Milet Meirelles trouxe para ‘Viva o Povo Brasileiro (de Naê a Dafé)’ uma construção coletiva com referências da música baiana contemporânea e da tradicionalidade. "Existe também um apontamento para o futuro. Tem muita percussão, cordas, sanfona, piano. São três músicos e um elenco também muito competente musicalmente. Tem essa diversidade como uma linha que vai conduzindo tudo. É uma construção coletiva com o processo de experimentação", define João.
AZIRA'I
'Azira'i' é, antes de tudo, um espetáculo sobre a relação entre uma filha e sua mãe. Com a dramaturgia construída a partir das memórias da atriz Zahy Tentehar, este solo autobiográfico vai resgatar a sua vivência com a mãe, Azira'i, a primeira mulher pajé da reserva indígena de Cana Brava, no Maranhão, onde ambas nasceram. O espetáculo tem produção da Sarau Cultura Brasileira, com direção de Denise Stutz e Duda Rios.
Azira'i foi uma mulher muito sábia e herdeira de saberes ancestrais, com vasto conhecimento sobre o mundo espiritual. Como pajé suprema, ela usava três ferramentas tecnológicas para curar: as plantas, a mão e o canto. Ao gerar e criar Zahy nesta mesma aldeia, deixou para ela seu legado espiritual. Ao longo da jornada como artista, Zahy fez do canto uma de suas expressões, o que poderá ser visto no espetáculo, em que ela cantará lamentos ensinados por sua mãe e canções originais compostas por ela com Duda Rios, sob a direção musical de Elísio Freitas, produtor responsável pelo premiado álbum ‘Nordeste Ficção’, de Juliana Linhares, que também divide a autoria de algumas composições com a atriz e o diretor.
É neste verdadeiro ‘musical de memórias’ que se apresentam Azira'i e Zahy, mãe e filha, mulheres nucleares, distintas, diversas e espelhadas: ‘Eu sou a filha caçula da minha mãe. A nossa relação, como muitas de nossos brasis, foi diversa: cheia de semelhanças e diferenças, com muitos afetos e composições importantes para nossa trajetória. A presença de minha mãe é tão viva que a nossa relação se faz continuamente importante. Quando pensei em trazê-la ao teatro, não foi para falar apenas dos meus sentimentos, foi para dialogarmos nossos reflexos enquanto sujeitos coletivos. Gosto de nos ver, humanos, como espelhos, pois nossas histórias se entrelaçam e se compõem’, analisa Zahy.
Azira'i faleceu em 2021, ao longo do processo de criação da montagem, que começa em 2019, quando Zahy e Duda Rios se conhecem no elenco de ‘Macunaíma’, dirigida por Bia Lessa e encenada pela companhia Barca dos Corações Partidos, também um projeto da Sarau. Nas conversas de camarim, Duda se surpreendia com o que Zahy contava – ela mesmo se define como uma contadora de histórias – e surgiu ali mesmo a semente de criar um espetáculo a partir daquela vivência em um contexto tão próximo, mas também tão distante.
Duda formatou a dramaturgia junto à atriz, em uma estrutura narrativa que percorre a história por diversos pontos de vista, como os da própria Zahy, mas também o de sua mãe e de uma narradora. No último ano, Denise Stutz se juntou à dupla de amigos criadores e a encenação propriamente dita começou a ganhar uma forma. ‘O nosso maior desafio foi selecionar, entre tantas histórias que ela havia me contado ao longo de quatro anos, quais iriam compor a dramaturgia da peça. Às vezes queremos abordar muitas coisas num espetáculo e terminamos perdendo o fio da meada. Mas se temos um eixo narrativo claro, a chance do público se envolver é maior. Nesse aspecto, a chegada de Denise foi fundamental, pois ela entrou no projeto pouco antes do início dos ensaios, com um olhar fresco que nos ajudou a identificar o que era essencial pra nossa narrativa’, conta Duda Rios.
Zahy, Denise e Duda conceberam então um espetáculo focado na performance, com apenas uma cadeira e uma cortina de corda crua como elementos de cena, além das projeções do multiartista Batman Zavareze (direção de arte e design gráfico), os figurinos de Carol Lobato e a iluminação de Ana Luzia de Simoni. ‘Eu fui conhecendo as memórias de Zahy durante esses meses de ensaio e fui me impressionando a cada dia pela potência das histórias de vida que ela contava e as narrativas sobre a mãe. Quando recebi o convite do Duda para me juntar a ele na direção desta montagem, tivemos conversas quase infinitas e o trabalho não faria sentido se a gente não escutasse primeiro os desejos de Zahy , afinal, é a história dela e são muitas memórias junto com sua mãe. A partir dessa escuta e dos textos que ela e Duda escreviam, começamos a tecer esse musical de memórias. O mundo da Zahy está no seu corpo, no seu canto, na sua presença, nas suas histórias, no que é único nela e que é também o outro’, reflete Denise Stutz.
"Azira'i" nasce ainda do desejo que Zahy tinha de contar as suas histórias reais, mas mostrando uma visão absolutamente não romantizada dos povos indígenas. ‘Uma história que é minha, mas também é a verdade de muitos brasis. É muito libertador poder falar do ser indígena de uma forma mais humanizada, sem estereótipos ou políticas. Quero poder contar a história de uma pessoa, como outras, que saiu de sua reserva, foi para a cidade, aprendeu uma outra língua e teve uma relação intensa com a mãe', reflete a atriz.
No palco, ela alterna cenas em português e também em Ze’eng eté, trazendo para o centro da cena o debate sobre os processos de aculturamento aos quais sua mãe foi submetida. Neste momento em que o país tem pela primeira vez um Ministério dos Povos Originários, a realização de um espetáculo como “Azira'i” ganha ainda um contorno mais especial. ‘Não por acaso, estamos realizando alguns projetos em que pensamos o Brasil a partir do que veio antes da chamada História Oficial. Ao falar de biografias que foram atravessadas e violentadas pela colonização, pensamos também no país que somos e projetamos o futuro que queremos’, celebra Andréa Alves, da Sarau Cultura Brasileira, que recentemente foi responsável pelas montagens de ‘Museu Nacional’ e ‘Viva o Povo Brasileiro’, trabalhos marcados por um acerto de contas com a turbulenta biografia do país nos últimos séculos.
SOBRE A PRODUTORA
A Sarau Cultura Brasileira, fundada em 1992, construiu um consistente currículo no mercado cultural carioca, atuando na pesquisa e viabilização de projetos para a recuperação da obra de artistas brasileiros, nos mais diferentes formatos, do palco à internet. Hoje, com larga experiência e reconhecimento no meio e mercado cultural, a Sarau tem a sua própria memória, riqueza de conteúdo e capacidade de realização inquestionável. Em três décadas de um ciclo virtuoso, realizou mais de 160 projetos, sendo 53 de teatro, 46 de música, 21 CDs, projetos de acervo, festivais, publicações de livros e exposições. A primeira produção audiovisual veio junto com a pandemia: ‘Elza Infinita’. Um documentário sobre Elza Soares, a partir da peça escrita por Vinicius Calderoni, dirigida por Duda Maia, em 2017. O filme, dirigido por Natara Ney e Erika Candido, foi uma coprodução com o Canal GNT e ganhou o New York Festivals, na categoria prata de Melhor Documentário. Levou o teatro para o palco digital na pandemia, exibindo no YouTube e simultaneamente com canais de televisão alguns espetáculos. Nessa estrada, a Sarau teve a alegria de ser indicada um sem-número de vezes e ter criadores e projetos contemplados com mais de cem prêmios.
FICHA TÉCNICA
Viva o Povo Brasileiro (De Naê a Dafé)
Da obra de João Ubaldo Ribeiro | Diretor e dramaturgo: André Paes Leme | Com Alexandre Dantas, Guilherme Borges, Hugo Germano, Izak Dahora, Jackson Costa, Ju Colombo, Júlia Tizumba, Luciane Dom, Maurício Tizumba e Sara Hana | Músicas originais: Chico César | Direção musical e trilha original: João Milet Meirelles | Direção de produção e produção artística: Andréa Alves | Diretora de projetos: Leila Maria Moreno | Coordenador de produção: Rafael Lydio | Diretor assistente: Anderson Aragón | Consultoria: Ynaê Lopes | Desenho de som: Gabriel D'Angelo | Iluminação: Renato Machado | Cenografia: Natália Lana | Figurino: Marah Silva | Preparação corporal e direção de movimento: Valéria Monã | Visagismo: Cora Marinho
Azira'i
Com Zahy Tentehar | Dramaturgia: Zahy Tentehar e Duda Rios | Direção: Denise Stutz e Duda Rios | Direção de arte e design gráfico: Batman Zavareze | Figurinos: Carol Lobato | Iluminação: Ana Luzia de Simoni | Trilha sonora: Elísio Freitas | Direção de produção e produção artística: Andréa Alves e Leila Maria Moreno
SERVIÇO
Viva o Povo Brasileiro (De Naê a Dafé)
Dias 16 e 17 de novembro, às 19h
Teatro do Parque: Rua do Hospício, 81, Boa Vista
160 minutos | 14 anos | Musical
Entrada gratuita. Os ingressos devem ser retirados na bilheteria do teatro uma hora antes de cada sessão
Azira'i
Dias 18 e 19 de novembro, às 18h
Teatro Apolo: Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife
80 minutos | 12 anos | Musical
Entrada gratuita. Os ingressos devem ser retirados na bilheteria do teatro uma hora antes de cada sessão

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