Museu da Abolição traz exposição sobre a perseguição às religiões de matriz africana
O projeto
Repatriação Digital do acervo Afro Pernambucano sob a guarda do Centro Cultural
São Paulo, patrocinado pelo Funcultura, aproveita a realização da Semana
Nacional dos Museus,até o dia 20 de maio, para divulgar e expor ao
público a catalogação digital que fez de mais de 400 peças pertencentes a
terreiros pernambucanos que foram confiscadas na década de 1930, durante as
perseguições às religiões de matriz africana, e que hoje compõem o Acervo Mário
de Andrade, guardado pelo Centro Cultural São Paulo (CCSP).
Durante o
Estado Novo, houve uma dura perseguição às religiões de matriz africana. O
governo implementou ações para localizar, invadir, destruir e eliminar estas
expressões e, muitas vezes, os seus praticantes. Essa política teve muita força
em Pernambuco e vários terreiros foram invadidos e destruídos e seus objetos
violentamente retirados de seus locais sagrados, quebrados, amontoados e
queimados em praça pública. Apenas uma pequena parte deles foi encaminhada às
delegacias e à Secretaria de Segurança Pública – SSP, como prova do crime
cometido pelo povo do terreiro: a prática ilegal das expressões religiosas,
associadas aos processos de curandeirismo, charlatanismo e possessão como
doença mental. Esse conjunto de objetos que estava sob a guarda policial
terminou sendo cedido à Missão de Pesquisas Folclóricas de Mário de Andrade,
durante sua passagem pelo Recife, em 1938.
O projeto Repatriação
Digital, que contou com a parceria Museu Afrodigital, do Museu da Abolição
(MAB) e do Centro Cultural São Paulo, identificou e digitalizou todos os
objetos dos terreiros do Recife, salvaguardados pela Missão de Mário de
Andrade, disponibilizando em visão 360 graus e atualizando sua documentação
museológica. O conjunto de cerca de 400 fotografias, produzidas durante a
pesquisa no CCSP, passou a compor do acervo digital do MAB e o inventário do
Museu Afrodigital, ficando a disposição do público e de pesquisadores na
internet, juntamente com novas fichas catalográficas com descrição de cada uma
das peças.
O conjunto
de objetos levados para São Paulo é composto por peças de diversos suportes:
cerâmicas, tecido, metal e madeira, ferro e papel. Entre eles estão
instrumentos musicais, imagens de santos católicos, resplendores, espadas,
abebés, pilões, setas, facões, imagens de santos católicos, bancos de pegí,
cifres de madeira e cerâmica, documentos e roupas dos filhos-de-terreiro.
“Observando a documentação museológica, identificamos cinco ´seitas´ das quais
faziam parte aqueles objetos: Xangô, Xambá, Nagô, Gêge e Mirê. Entre os orixás,
aos quais são atribuídos os objetos, ou nos quais têm inscrições, estão:
Yemanjá, Xangô, Xangô Bacele, Oxum, Oxum Timi, Oxum Pandá, Oxum Fá Miló,
Oxossi, Aloiá, Ogum, Exu, Oxalá, Odê Bombôchê, Odê, Omulu e Oiá”, descreve
Charles Martins, antropólogo e coordenador do projeto.
Durante a
semana dos museus, nos dias 15, 16 e 17, a equipe de produção do projeto fará
visitas a alguns dos terreiros descendentes daqueles existentes na década
de 1930 (Nação Xambá, Pai Edson e Sitio de Pai Adão) para levar essa
documentação digital, possibilitando que eles possam voltar a se apropriar de
suas referências do passado. “É importante que eles possam se reaproximar dos
objetos dos seus antepassados. Essas referências são fundamentais para que se
possa registrar a história desses terreiros”, pontua a curadora da pesquisa e
diretora do Museu da Abolicao, Elisabete Assis.
Segundo Charles
Martins, além de permitir ao público pernambucano o acesso ao acervo que se
encontra distante, em São Paulo, dá a possibilidade de resgatar memórias
sociais em torno das perseguições das expressões religiosas de matriz africana,
ocorrida nos anos de 1930 no Recife. Ao resgatar essa memória, denunciamos a
violência do Estado ao povo de terreiro. Esta, talvez, a maior contribuição:
possibilitar o conhecimento sobre episódios do passado, que não devem ser
esquecidos, para que evitemos que ele se repita no presente e no futuro”,
pontua.
Do
conjunto de objetos levados à Secretaria de Segurança, naqueles episódios,
parte deles foi encaminhada para o Museu de Assistência e Psicopatas, existente
à época, e posteriormente doada ao Museu do Estado de Pernambuco – MEPE. Este
conjunto compõe a Coleção Xangô, com 308 objetos, e permanece sob a guarda do
MEPE. Outra parte daqueles objetos foi doada à equipe da Missão de Pesquisas
Folclóricas e levados a São Paulo, a partir da interlocução realizada com o
delegado João Roma, intermediada por Ascenso Ferreira e Waldemar de Oliveira. A
equipe da Missão conseguiu autorização para documentar o canto, a dança,
as orações e expressões do xangô recifense, a partir de entrevistas,
fotografias e gravações de áudio. Conseguiram também a doação de 519 objetos,
por eles escolhidos, os quais estavam entulhados no pátio da SSP. Naquele
momento, após recolhidos, os objetos foram identificados e catalogados, com a
ajuda de alguns babalorixás entrevistados pela equipe da Missão, embalados e
enviados a São Paulo para Mário de Andrade.
Repatriação
Digital do Acervo Confiscado nos Terreiros - Exposição Digital
Disponível
em: http://www.museuafrodigital.com.br/repatriacaodigital/
Serviço:
Museu da
Abolição
Endereço: R. Benfica, 1150 – Madalena


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