Wilfred Gadêlha

Por: Anax Botelho
Foto: Roberta Menezes

Desde a origem do Black Sabbath, em 1968, na Inglaterra, o heavy metal conquistou o mundo. Em cada região, o gênero teve características singulares, que fizeram desse estilo musical um dos mais populares. Movimentos como o new wave of british heavy metal e o black metal norueguês contribuíram para o heavy metal e tiveram suas histórias registradas em documentários e livros. No Brasil, a cena heavy metal ganhou destaque no Estado de Minas Gerais, com bandas como Sarcófago, Sepultura e outras. Em Pernambuco, o metal, como é simplesmente chamado pelos fãs, tem sua origem na década de 1980, mas apenas em 2014 ganhou um livro contando sua história, o Pesado – Origem e consolidação do metal em Pernambuco, do escritor, jornalista e músico Wilfred Gadêlha.


Agenda Cultural: Como surgiu a ideia do livro Pesado...?

Wilfred Gadêlha: A ideia do livro surgiu em 2009, antes mesmo de eu participar da história. Foi uma pesquisa para inscrever o projeto no Funcultura, com os sociólogos Daniela Maria Ferreira e Amílcar Bezerra, ambos professores da Universidade Federal de Pernambuco. Daniela, do Centro de Educação, e Amílcar, do campus de Caruaru. Também participou o etnomusicólogo franco-lusitano Jorge de La Barre. Eles tiveram a ideia de fazer uma pesquisa sobre o metal em Pernambuco, inscreveram a pesquisa no Funcultura e me contataram para ser entrevistado. A pesquisa se chama: Transformações: cena metal no Recife pós-mangue. Ao longo do tempo, terminei como consultor deles. Apesar de terem um passado no metal, de terem frequentado shows e tal, não estavam mais integrados à cena ou com conhecimento profundo, e eu, modéstia à parte, tenho um pouco. No final, o primeiro relatório foi assinado a oito mãos, ou seja, nós quatro assinamos o relatório de pesquisa. Então tivemos a ideia de uma segunda pesquisa, e aí já começou a ideia do livro. A segunda pesquisa, que se chama Além da capital: música pesada no interior de Pernambuco, nos levou a Caruaru, Vitória de Santo Antão, Garanhuns, Surubim e Carpina para mapear bandas, produtoras e locais de show. Em andamento com a pesquisa no interior, começamos a elaborar o livro, uma vez que grande parte das entrevistas já haviam sido feitas. Fizemos mais de 150 entrevistas, sendo que 70% foram feitas nas duas pesquisas e o restante eu fui complementando. A ideia sempre foi que eu escrevesse o texto final, e isso foi uma coincidência porque eu atuo escrevendo sobre metal desde 1990, quando eu fazia fanzines aqui no Recife. As pessoas diziam: “se alguém tem que escrever sobre o metal de Pernambuco, esse alguém é você, Wilfred”. Eu acreditei nisso e o livro saiu, também financiado pelo Funcultura. É importante a gente dizer que o Funcultura acreditou na pesquisa, viu que era uma pesquisa séria e também que existia uma lacuna na bibliografia musical de Pernambuco. Esse livro é inédito. Tem uma ou outra pincelada no Do frevo ao manguebeat, de Zé Teles, e no livro Devotos 20 anos, de Hugo Montarroyos, mas eles não se aprofundam, até porque não era o objetivo desses livros. E o nosso livro se aprofunda.

AC: Como foi a sensação de ver o livro e a pesquisa finalizados, se é que a pesquisa está finalizada...

WG: A gente ainda tem muita coisa... E muito desse material coletado já está servindo de base para artigos acadêmicos, tanto de Daniela Ferreira, quanto de Amílcar Bezerra. Eles estão agora trabalhando em um artigo sobre como ouvir metal. As mudanças aconteceram durante as décadas em que você ouvia metal na casa das pessoas, depois passou a ouvir nas lojas e depois, sozinho, no seu fone de ouvido, no mp3 player, no computador, no celular... Eu tenho planos de fazer mais coisas com esse material e uma das sugestões que me foi dada foi o Pesado HC, um livro mais voltado para o punk. Eu sou vocalista do Câmbio Negro, a primeira banda punk do Estado, e espero ter certa legitimidade para escrever também. Muita gente tem perguntado por que não falei sobre a banda Realidade Encoberta, entre outras, como falei sobre as bandas de metal. A explicação que tenho dado é que não são bandas de metal, são bandas que convivem com bandas de metal – com integrantes e participando das coisas. Essa é uma das ideias, a outra é de que está em andamento a realização de um documentário que pegue aspectos do livro como roteiro. Um exemplo disso é falar sobre o Beco da Fome como pano de fundo, sobre o que existia antes do mangue. É um assunto do qual tenho falado, e o livro também, sobre a falácia, que foi amplamente divulgada, não sei exatamente quem começou com isso, de que não existia nada em Pernambuco antes do mangue, e isso não é verdade. Havia uma cena forte, pulsante, underground e independente que não precisava do Estado e sobrevivia a duras penas, aos trancos e barrancos, mas sobrevivia. Muita gente que participou dessa cena está na gênese do manguebeat. Não tenho nada contra o manguebeat, eu gosto de Chico Science, gosto dos primeiros discos do Mundo Livre S/A, mas ao surgir o manguebeat sempre quis ser pop e nós, da cena metal e da cena punk, nunca quisemos ser pop. Essa talvez seja a diferença e também a coisa que magoa muita gente no metal que fala que os caras chegaram depois e conseguiram sucesso. Não sei se quem começa com o metal quer sucesso, ou melhor, quer o sucesso até certo nível, mas esse isolamento que o headbanger busca é uma coisa do próprio gênero.

AC: Como você conheceu a cena metal recifense?

WG: Eu comecei a ouvir heavy metal em 1986. Comecei a militar na cena... Considero militar quando você vai para o primeiro show local, no dia 6 de junho de 1989. Obviamente que quando comecei em 86 já existiam coisas, e a gente pode dizer isso porque ouviu da maioria das pessoas com quem a gente conversou. O que tem são depoimentos, lembranças, fanzines, cartazes, esse tipo de coisa.  Foi uma espécie de convenção que o primeiro show de heavy metal de uma banda pernambucana, em 18 de dezembro de 1983, no Shopping Recife, do Herdeiros de Lúcifer. Uma banda que existia aqui, considerada a primeira, só que era cover. Tocavam Van Halen, Judas Priest, Saxon, Iron Maiden e até chegaram a tocar Metallica uma vez ou outra, mas era uma banda cover com muita pouca coisa autoral. A gente não sabe dizer qual foi a primeira banda fora os Herdeiros de Lúcifer... Você tem uma cena no começo dos anos 1980 muito rudimentar, mas com bandas como Fire Worshipers, Arame Farpado, Cristal, Esparta, Kromo, Napalm, Caco de Vidro, essas são as bandas que começaram a cena. Todas essas são voltadas para o heavy metal. Estava começando a divisão de subgêneros do metal, mas esse pessoal que começou gostava do metal mais tradicional, com influência do Iron Maiden, Judas Priest, entre outras. Em 1985, com o Rock in Rio, há uma maior popularização do gênero no Brasil e Pernambuco não ficou de fora. Em 85, uma loja é aberta na rua 7 de Setembro, a Mausoleum, da qual todo mundo fala. Na loja tinha um caixão no lugar do balcão e era toda pintada de preto. Essa loja é um divisor de águas, porque ela começou a trazer o material mais extremo da época, trouxeram discos de Kreator, Destruction, Hellhammer, Celtic Frost, Sodon, Possessed e também muito hardcore. A Mausoleum, apesar de ser uma loja mais para o metal, também trazia The Exploited, GBH, Discharge, esse tipo de coisa. Nessa época, começou a fomentar no pessoal daqui a vontade de fazer um som mais extremo, então começam as primeiras experiências, por volta de 86 e 87. Esse é o momento em que o thrash pipoca em Pernambuco, com o Cruor como o líder da cena,  vem o Putrefação, Cérbero, The Ax, em Caruaru você tem o Storms, banda formada logo depois do show do Sepultura lá, um marco na cena pernambucana... O Sepultura tocou pela primeira vez em Pernambuco em Caruaru, no dia 30 de maio de 1987, na estreia do Andreas Kisser na guitarra. Existe toda essa aura, e a gente conseguiu destrinchar no livro, a história desse show.

Acervo Pessoal
AC: Quais são os detaques do metal para você?

WG: Minha filha de 16 anos me perguntou um dia desses qual era minha banda predileta. Pensei no Slayer, The Haunted... Eu estava arrumando os discos e fiquei pensando, aí fui olhar de quais bandas eu tenho disco e concidentemente  vi de Slayer, The Haunted, Kreator, Candlemass, mas minha banda predileta é mesmo o Iron Maiden. O Iron Maiden é uma banda que fica em um patamar um pouco mais acima, sempre que vou vê-los eu choro. Já fui a cinco shows do Iron Maiden e nos cinco eu chorei. O Metallica também é pra mim uma banda muito importante. Eu tive a chance de entrevistá-los em 2010 em uma coletiva no Morumbi. Quando James Hetfield entrou na sala, minhas pernas começaram a tremer, e foi por causa da calça rasgada de James Hetfield que hoje estou aqui. Na contracapa do disco Master of Puppets, ele aparece com uma calça rasgada e eu nunca esqueci disto: de pegar minhas calças,  rasgar e querer ser James Hetfield, mas hoje nem tanto. Eu acho que no mercado mundial, você tem uma ascensão do gênero mais extremo, como o black metal que é muito interessante. Você vê as turnês do Dimmu Borgir e do Cradle of Filth, eles nos tops dos cartazes. Uma coisa interessante do metal de hoje é que não tem mais aquele negócio de ser só dos Estados Unidos e da Inglaterra. No mundo todo, e o filme Global Metal explica de uma maneira muito legal, você tem bandas. E não é só uma banda, como era no começo dos anos 1990, como era o Sepultura do Brasil, o Transmetal do México. Hoje você vê uma grande disseminação das bandas, acesso ao material, apesar de não comprar mais discos, mas a disseminação é muito forte via internet, por exemplo. No mercado brasileiro, pelo que eu tenho notado, e aqui em Pernambuco também, é que há uma leva de bandas surgindo cantando em português. Aqui, o Cangaço, por exemplo, só canta em português. O disco Sertão saga, do Hate Embrace é todo em português; você tem o Desalma que canta em português. Eu acho que esse é um caminho que está começando a ser traçado pelas bandas daqui. Tem muita banda de death e black que canta em português. As pessoas me perguntam para onde a cena vai, eu não sei, mas a cena foi. Durante todo o tempo ela foi. Não tem muito mistério, todo dia vai aparecer um cara que vai ouvir o Iron Maiden ou o Metallica pela primeira vez e vai gostar e isso vai puxar para outras coisas. O ciclo é muito interessante. Quando eu entrei no Cruor, a banda estava meio estagnada –não que seja eu o cara que fez o reviver da história –, mas a gente começou a investir em composição, gravar um trabalho novo e foi interessantíssimo porque a gente viu uma mudança no público impressionante. Os primeiros shows que fiz como vocalista do Cruor, o primeiro em 2008, eram só nossos amigos, os coroas antigos. Hoje em dia a molecada está na frente de palco.

AC: Qual foi a contribuição da cena metal para o resto da cidade?


WG: Eu acho que no final de 1989 a gente estabeleceu um modus operandi de produção de eventos que talvez tenha se refletido em outras cenas. Em um dos artigos de Amílcar Bezerra, ele fala que o know-how da cena punk/metal foi transferido para a cena mangue, por exemplo. Indiretamente, a cena punk e metal tem culpa no cartório, vamos dizer assim, do que hoje está no mainstream. Isso eu acho uma contribuição importante. Por exemplo,  Mestre Ambrósio era uma das principais bandas da primeira geração do manguebeat, o zabumbeiro deles, Eder “O” Rocha, foi baterista do Arame Farpado. Siba, que é um cara conhecidíssimo, tocava rock ’n’ roll também, não chegou a tocar em uma banda de maior destaque, mas também pouquíssimas pessoas sabem que Max Cavalera no primeiro show do Sepultura, aqui no Recife, tocou com um pedal que era de Siba. Você olha na  banda Eddie, Kiko e Rob, eles eram do Eutanásia, uma banda de hardcore que tinha aqui. Um exemplo claríssimo, o pessoal do Faces do Subúrbio... O guitarrista Oni era do Arame Farpado, foi do Câmbio Negro, e o baterista Garnizé foi do The Ax. São muitas contribuições, muita gente do metal, do punk foi tocar nas bandas que depois explodiram. O principal, talvez, do Mundo Livre S/A, Fred 04 fez alguns ensaios com o Câmbio Negro. Então a primeira formação do Câmbio Negro, embora não tenha saído do estúdio, tem Fred 04 na guitarra e Renato L no vocal, dois caras que eram do mangue e que estavam na gênese do movimento mais pesado. Os músicos sempre se relacionaram, e talvez a maior contribuição seja essa. Outra coisa importante é que as bandas de metal daqui de Pernambuco compõem letras muito críticas, conscientes e voltadas para o lado político-social, por causa da convivência que tinha com os punks. Vejo isso com algo que diferencia a gente de outras cenas. As bandas daqui têm o que dizer. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

De 30 de julho a 5 de agosto, Cinema São Luiz tem programação variada e com filmes gratuitos

Duos

HISTÓRIAS PARA VOAR ...