sábado, 1 de fevereiro de 2014

Por trás das cortinas: Mônica Lira, um pássaro que sabe voar

Mônica Lira. Foto: Ricardo Labastier
Por Manoel Constantino

Nascida em Fernando Noronha, uma ilha paradisíaca e convivendo com poesia da natureza, Mônica Lira, hoje coreógrafa, fez da dança a sua fonte de vida e inspiração para mergulhar no mar da criação sem medo. A coragem e determinação são características de quem sabe que é preciso navegar e descobrir sempre novos territórios.  A garota que viveu algum tempo ilhada criou asas, abriu horizontes e em 2014 comemora 20 anos de labuta e arte com sua companhia de dança, o Grupo Experimental, tendo a certeza que novos desafios virão e que o espírito da dança viverá sempre alimentando seus sonhos para ser possível transformar a realidade.

Manoel Constantino – O Grupo Experimental comemora 20 anos. Como foi o começo de Mônica Lira? E quais foram os estímulos que a levaram ao mundo da dança como a principal atividade da sua vida?

Mônica Lira - Comecei a dançar com sete anos, mas só depois dos 12 é que realmente me dediquei mais e comecei a praticar outras técnicas e rapidamente descobri, que queria dança para minha vida! Fiz aulas com pessoas maravilhosas que me fez cada vez mais me apaixonar, sim porque para dançar, precisa ter paixão!

Era jovem e imaturo para saber definir o que a dança fazia comigo ao ponto de não conseguir parar, comecei a trabalhar com dança aos 17 anos e todo o dinheiro que recebia guardava para viajar nas férias e me capacitar. Sempre fui muito determinada, hoje posso dizer que o que me levou a seguir em frente, foi à certeza de que a dança me completava e me fazia muito feliz. Sinto-me privilegiada, recebi e recebo até hoje o apoio da minha família e não precisei desistir!


Barro Macaxeira- 20 anos Experimental
Manoel Constantino – Quais foram as dificuldades enfrentadas como produtora e coreógrafa de um grupo que hoje atinge 20 anos de carreira?

Mônica Lira - As dificuldades foram inúmeras, primeiro a falta de apoio para manter o grupo e a mim mesma. Tive que dar muitas aulas e durante muito tempo eu, Ana Emília Freire, Ivan Dantas, Renata Lisboa e Sonaly Macedo, praticamente sustentávamos nossa dança. Era exatamente assim, a dança não nos sustentava, nós que sustentávamos a dança! Mas eu sempre quis mudar essa realidade, não conseguia entender um trabalho feito com tanto amor e dedicação não conseguir se sustentar. Acredito que esse sonho de mudança, me fez chegar até aqui!

Coloco aqui um pensamento de Charlie Chaplin:

"A fé desempenha em nossa vida um papel mais impor­tante do que supomos, e é o que nos permite fazer mais do que pretendemos. Creio que aí está o elemento precursor de nossas ideias. Sem a fé não se teriam elabo­rado jamais hipóteses e teorias, nem se teriam inven­tado as ciências ou as matemáticas. Estou convencido de que a fé é um prolongamento do espírito: negar a fé é condenar-se e condenar o espírito que engendra todas as forças criadoras de que dispomos."

Acredito que a dança é o espírito sempre vivo, a fé sempre moveu e pulsou dentro de mim a esperança de um espaço conquistado para a dança e sempre trabalhei nessa perspectiva. Vivemos numa cidade de artistas únicos e não se justifica um povo que vende uma cultura, mas que a grande maioria dos seus artistas não se sustenta. As dificuldades foram inúmeras, mas não posso falar sobre elas, quero citar alguns projetos que considero fundamentais para a cidade e consequentemente para o Grupo e que me fizeram ultrapassar os momentos difíceis.

Mônica Lira - Conceição - Sobrado
Criei junto com outros parceiros “O primeiro encontro Pernambucano de dança” (Grupo Experimental, Shiro Dance e Gafieira Etc e Tal), depois “O Festival Internacional de Dança do Recife” (Andrea Carvalho, Mônica Lira e Luiz Tamashiro), “O Movimento Dança Recife” (Marcelo Sena, Marília Rameh e Mônica Lira). Sempre trabalhei pela dança, junto com outros apaixonados. Acredito no trabalho coletivo, lutar por uma realidade e oportunidades de trabalho para a dança tinha que ser um desejo de vários corações, embalados por várias vozes.

Desenvolvi projetos Importantes para o Grupo Experimental: “O Núcleo de Formação em Dança”, projeto social que oferecia formação inicial em dança, para jovens de comunidades. Esse ano o Núcleo completa 10 anos, esse projeto me fez descobrir e acreditar que posso fazer mais pelos que tem menos. Sinto-me realizada com ele, não consigo enxergar meu trabalho sem ter a oportunidade de oferecer aquilo que mais acredito na vida que é a arte de dançar, um misto de satisfação, alegria, amor, partilha, valorização do outro que não dá pra definir com palavras. Mas que infelizmente dependemos de financiamentos.

Outro projeto importante é o “Reciclarte”, poder proporcionar outros conhecimentos que há quase dez anos (2005) não tínhamos na cidade, dividir com outros artistas gratuitamente, cursos teóricos e práticos em dança.

O Experimental conseguiu continuar por tudo que consegui realizar, todas as criações, viagens internacionais e nacionais, projetos realizados, uma história escrita por muitos, todos que um dia contribuíram com esse lugar que dança, foram fundamentais nesse percurso!

Manoel Constantino – Quais são as perspectivas para 2014?

Mônica Lira - Temos dois projetos para serem realizados com financiamento do Funcultura, uma circulação nacional (Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e Fernando de Noronha). O outro uma pesquisa “A dança no corpo desse lugar”, que começa agora em março.

Mas não dá pra comemorar 20 anos sem falar sobre a sobrevivência, quero montar um espetáculo (ainda sem nome) que irá reunir o primeiro elenco do Grupo (citado acima) e o atual (Everton Gomes, Gardênia Coleto, Januária Finizola, Jennyfer Caldas, Jorge Kildare, Lili Rocha, Patrícia Pina Cruz, Rafaella Trindade e Ramon Milanez). Vamos dançar a não sobrevivência da nossa própria alma que muitas vezes temos que guardar para poder viver. Criar sem financiamento para poder dizer com o movimento esse sentimento de tantos artistas.

Pretendemos criar o último trabalho da Trilogia Ilhados (“Pontilhados”), esse ainda vamos captar os recursos.

Comemoração de 10 anos do Núcleo de Formação.

Sempre penso e sonho com muitos projetos, nem sempre consigo realizar logo, mas um dia sempre realizo!

Manoel  Constantino – Vale à pena mergulhar no mundo da dança? Quais seriam os melhores caminhos para quem hoje quer começar, sendo adolescente ou adulto?

Mônica Lira - Quando dançamos mergulhamos num mar desconhecido, mas de um fascínio que todos nós merecíamos experimentar. Seria simplesmente maravilhoso se todos nós pudéssemos viver essa experiência, por isso quero poder conseguir continuar pegando na mão de algumas pessoas e leva-las para esse mergulho particular em si mesmo, um mar que é seu e todos, sem regras sociais e muito felizes!

O caminho é sempre o primeiro passo, tomar a decisão e buscar. Para alguns somente, dançar sem compromisso com nada, dançar pelo simples prazer de mover-se e de repente perceber ou nem perceber o que a dança fez por você. Para outros que querem se profissionalizar, hoje tem o curso de dança na UFPE, uma conquista (Movimento Dança Recife) dos que dançam verdadeiramente e que lutaram por esse espaço de aprendizado formal na cidade, ainda é um curso só de licenciatura, mas um espaço para os que querem estudar a dança. Existem inúmeras escolas na cidade, espaço dos grupos profissionais que oferecem aulas regulares, além de projetos sociais para os que não têm condições de pagarem.

Conheço muitas pessoas que chegam pra mim dizendo que gostariam de dançar, mas nunca procuraram fazer uma aula, muitos por vergonha, receio, medo, mesmo que a maioria não queira se profissionalizar, digo que, a dança sempre nos recebe de braços abertos, basta vir com a alma e o melhor dos seus sentimentos.
Independente da idade, todos deveríamos dançar algum dia na vida!

Manoel Constantino – Como descobrir talentos?

Mônica Lira - Dando oportunidade, nós Pernambucanos somos um povo dançante. Além do mais, nunca conheci alguém que não conseguisse dançar, quando se determinava aisso,se dando essa oportunidade. Independente de ser dança, temos talento para tudo que quisermos ser, mas a fé (que Chaplin fala) de conquistar e persistir no que quer pra sua vida é uma escolha de cada um. Pra mim, todos nós temos talentos para dançar. Posso dizer que através do nosso projeto de formação, pude dar essa oportunidade, alguns conseguiram se descobrir nesse caminho, outros simplesmente passaram e aqueles que não tenham seguido, descobriram algo dentro deles, mesmo que não tenha sido talento pra dança, algo ficou de muito significativo!

 Manoel Constantino – Qual o seu maior sonho como coreógrafa do Recife?

Mônica Lira - Ter vários grupos de dança financiados é inadmissível uma cidade como Recife que tem o Frevo como Patrimônio Imaterial da Humanidade, não ter nenhuma companhia municipal ou estadual de dança. Que os empresários pudessem olhar para outros horizontes, investindo em Arte de qualidade e não somente em eventos de massa. Que o nosso Governo recebesse as novas empresas que queiram se instalar em Pernambuco e pudesse propor, para que elas invistam na cultura local, através de editais próprios ou mesmo da Lei Rouanet, financiando Grupos de Dança, Teatro, Musica, enfim que pudéssemos ter mais teatros e valorização da arte. Lugar aonde tantos vêm beber, mas que poucos matam a sede dos que aqui estão e permanecem!Vamos continuar construindo nossa história, deixar que as raízes sejam sólidas, pois temos uma identidade que precisa ser preservada e respeitada, mas acima de tudo valorizada! 

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