domingo, 2 de fevereiro de 2014

Meu bairro... Moro aqui: Beberibe

Avenida Beberibe
Texto e fotos: Gianfrancesco Mello

Um dos bairros mais antigos do Recife. Nas terras que atualmente ocupa, existiu, no século XVII, um engenho de açúcar de propriedade de Diogo Gonçalves, que foi auditor da Capitania de Pernambuco. Esse terreno lhe foi doado como presente de casamento quando se uniu a Isabel Fróis – uma importante dama que era protegida pela rainha Catarina, esposa de D. João III, e que veio de Portugal em 1535. Essa propriedade era banhada pelo Rio Beberibe. E foi dessa maneira que surgiu o bairro sobre o qual iremos abordar nesse mês. Beberibe integra a segunda região político-administrativa do Recife. Seus bairros vizinhos são: Porto da Madeira, Cajueiro, Fundão e Água Fria, que foram desmembrados de Beberibe por causa do reordenamento da região feito pela Prefeitura do Recife, e ainda os bairros de Dois Unidos e Linha do Tiro.

Nosso guia Cláudio de Lima
Beberibe é de origem indígena e significa “voar em bandos”, referindo-se aos voos dos pássaros existentes no local no passado, nas margens do rio. As águas do Rio Beberibe representavam fonte de vida e ajudavam na sobrevivência da sociedade em tempos remotos. Sobre o nome, da língua indígena tupi, sabe-se que ele se originou da palavra jabebyra, depois no topônimo Jabebyrype, a seguir Bebyrype e, por fim, Beberibe. O bairro participou de forma direta nas lutas históricas do povo pernambucano.

Em 1636, o colono Antônio de Sá adquiriu a propriedade e, com o passar dos anos, os seus herdeiros organizaram na área uma fazenda para, além do engenho, explorar também madeiras para fabricar carvão vegetal. De acordo com os livros de história, encontrados na Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco, desde meados do século XV, os benefícios do rio eram citados. No século XVIII, a Fazenda Beberibe passou a ser loteada pelos seus proprietários à época e, no lugar do antigo engenho, surgiu um povoado.


Praça da Convenção
Em 1714, com a morte dos herdeiros o engenho é doado à Igreja de Nossa Senhora de Guadalupe, em Olinda, com todas suas matas, pastos, olarias e tudo que pertencia às terras, passando em seguida ao patrimônio do colégio dos Padres Jesuítas. Em virtude da expulsão e banimento desses religiosos, a propriedade foi confiscada pela Fazenda Real em 1765, sendo depois vendida em hasta pública. A igreja da povoação (sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição de Beberibe) foi concluída em 1767. No início do século XIX, foi aberta uma estrada ligando Beberibe à Encruzilhada, fato que acelerou o desenvolvimento do povoado.

No ano de 1807, a propriedade passou a pertencer ao padre Felipe Néri de Farias, saindo das suas mãos em 1829, quando a propriedade passou a ser conhecida em função da sua casa de Vivenda de Sobrado, com senzala, estrebaria, casa de farinha, uma grande quantidade de matas e águas cristalinas. Na revolução de 1821, depois que os pernambucanos derrubaram o governador português Luís do Rego Barros, foi decretada a independência de Pernambuco e se elegeu uma junta governativa. Ali foi assinada a chamada Convenção de Beberibe. Para celebrar os episódios de 1821, a Prefeitura mandou erguer na principal praça do bairro o Monumento à Convenção de Beberibe, obra encomendada ao artista plástico Abelardo da Hora. O monumento, de cimento polido, tem oito metros de altura. A Praça da Convenção, existente até os dias de hoje, marca o lugar onde eram sediadas as reuniões do movimento separatista. Situa-se nas terras das primitivas e 'densas matas de Beberibe', onde foi assinada a Convenção e revela o processo de lenta urbanização ocorrido nas primeiras décadas do século 20. Esses lados também tiveram importância histórica por ocasião da Revolução Praieira, em 1848.

Monumento à Convenção de Beberibe, obra
encomendada ao artista plástico Abelardo da Hora
Nesse bairro, em 1889, foi fundado o Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas e composta, em 1909, a canção Vassourinhas por seus moradores Joana Batista e Teodoro Matias, este último um dos fundadores do grupo. Segundo a pesquisadora Semira Adler Vainsencheros, da Fundação Joaquim Nabuco, no século XIX, abriu-se uma estrada ligando a Encruzilhada de Belém a Beberibe. Em 1865, surgiram linhas da estrada de ferro, ligando o Recife a Olinda. Mas os bondes elétricos só foram disponibilizados em 1922. Já no século XXI, as águas do rio Beberibe começaram a ficar extremamente poluídas, por causa da ação dos homens, sendo impróprias até mesmo para a lavagem de roupa.

Durante o nosso passeio pelo bairro de Beberibe, pudemos observar um bairro quase que totalmente comercial. Claro que há suas moradias, simples, mas onde residem pessoas esperançosas e que procuram conviver com as adaptações que a região sofreu. Para nos mostrar como está o bairro, fomos guiados pelo morador e exímio jogador de dominó Cláudio de Lima, que nasceu em Beberibe há 33 anos. “Eu acompanhei muitas mudanças por aqui. Hoje em dia, não temos muitas opções para nos divertir. Temos essa praça (Praça da Convenção), onde nos encontramos para conversar e jogar dominó”, explica. Os encontros para jogar dominó acontecem todos os dias das 6h às 21h.

Uma das opções para passar o tempo, é jogar
dominó na Praça da Convenção
Cláudio também nos leva até o Mercado Público de Beberibe. “Aqui, podemos tomar café, almoçar ou comprar algo que esteja faltando em casa. Desde pequeno eu frequento esse mercado”, diz. O local surgiu da iniciativa privada, na década de 1950. Com o tempo, a Prefeitura do Recife desapropriou o local, realizou ampla reforma e adequou-o para uso da população. A inauguração como mercado público se deu no dia 12 de novembro de 1985 e hoje possui 54 boxes. Dispõe de comércio variado, com destaque para a venda de cereais. Na feira, na parte de trás do mercado, vendem-se frutas, verduras, legumes,  cereais, entre outras coisas. Funciona de segunda a sábado, das 6h às 18h, e aos domingos e feriados, das 6h às 13h.


Praça Chayenne
Percorrendo a Avenida Beberibe, o nosso guia nos leva até a Praça Chayenne, que está, cada vez mais, tornando-se ponto de encontro dos moradores evangélicos. Isso porque vários eventos acontecem por lá. O responsável pelo local é o senhor Chayenne. Tímido, não quis tirar foto e quase não deu informações sobre a praça. Depois de um tempo, ele começou a ficar mais solto e relatou que há 22 anos, por iniciativa própria, começou a aterrar o local para servir como opção de lazer. “Foram 50 caminhões de barro e muitas telhas inglesas para criar este espaço. Ganhei também essa estátua gigante com uma flecha, que foi fabricada na Holanda. Coloquei, então, o meu nome na praça, porque é de origem indígena. Eu também já estou instalando um parquinho para as crianças”, frisa. Conversa vai e conversa vem, mas foto, nem pensar. Enfim, saímos de lá e nos despedimos do nosso guia Cláudio, com a certeza de que Beberibe esconde sob suas terras, um passado cheio de lutas por liberdade e conquistas. Liberdade essa praticada pelo senhor Chayenne e pelo nosso guia Cláudio. É importante dizer quem faz o bairro são as pessoas que neles residem e, se quisermos, podemos transformá-los no melhor lugar do mundo para se viver.

Outras fotos:

Estátua símbolo da Praça Chayenne
Área de lazer para Praça Chayenne
Mercado Público de Beberibe

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