Por trás das cortinas: Alexsandro da Silva
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| Foto: Divulgação |
DO ENCANTAMENTO
DAS LETRAS AO PICADEIRO DO CIRCO
Por Manoel Constantino
É gratificante
saber que um garoto aos 10 anos criou, com um grupo de amigos, uma revista para
poder contar as aventuras de um menino e seus amigos, fazendo tudo a mão,
textos e desenhos e, já com uma noção de empreendedorismo, vendia cópias
mimeografadas, para os outros colegas de classe da escola onde estudava. O
encantamento da literatura já fazia os seus efeitos. Logo depois veio a magia
do teatro, do circo e da dança. Conheça um pouco da trajetória de Alexsandro da
Silva, um artista, um buscador do riso.
Manoel
Constantino –
De Araripina para o Recife. Da graduação em Letras para as artes cênicas. Como
foi esta trajetória que o levou a mergulhar no mundo dos encantamentos que o é
teatro, dança e o circo?
Alexsandro
da Silva - Meu primeiro contato com a arte
foi com a literatura, sempre gostei muito de ler. E foi através da paixão pela
leitura que comecei a escrever, comecei escrevendo poesias e participando de
concursos literários na escola. Lembro que aos 10 anos, eu e um grupo de amigos
criamos uma revista infanto juvenil que contava as aventuras de um menino e
seus amigos. Era tudo feito a mão, textos e desenhos, e as cópias eram
mimeografadas. Depois vendíamos para os nossos colegas de classe, que faziam
reservas dos exemplares já que era uma pequena tiragem. Também foi através da
paixão pela leitura que conheci o teatro, lendo Maria Clara Machado, Silvia
Orthof, Ana Maria Machado e outros autores de teatro para infância e juventude.
Comecei a escrever para teatro antes de atuar como ator e diretor. Aos 13 anos
conheci a atriz e professora de teatro Bebel de Oliveira, que tinha um grupo de
teatro e era quem movimentava culturalmente Araripina, cidade em que eu morava.
Foi através da Bebel e do grupo de teatro Proceni “us” que tive acesso ao encantador
mundo do teatro. Foi também através do Grupo Proceni “us” que fui dirigido pela
primeira vez por Sebastião Simão Filho, ator e diretor, importante figura na minha formação como
ator.
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| Reprilhadas e entralhofas - um concerto para acabar com a tristeza. Foto: Douglas Fagner |
Em 2003 venho morar em Camaragibe,
que era uma cidade extremamente cultural e tinha a frente da fundação de
cultura José Manoel Sobrinho. Em Camaragibe passo a integrar o Grupo Teatral
Caras e Bocas, ao mesmo tempo em que fundo a “Troupe Cênica Expressart” que
estreia no Festival Estudantil do Recife com a peça “Jeca Tatu, cutia não”,
texto de Lula de Oliveira, sob minha direção. Nosso segundo espetáculo é “Uma
mulher dama” de Lourdes Ramalho e teve a direção do ator e diretor Geraldo
Cosmo. A vinda para Camaragibe me proporciona a oportunidade de investir na
minha formação cênica, participando de vários cursos livres com grandes nomes
da cena local e nacional. Nesse processo, vale à
pena ressaltar, a importância do Circuito Pernambucano de Artes Cênicas na
minha formação, tanto em terras sertanejas, quanto em terras litorâneas. Em
2005 integro o elenco do projeto “Armazém de Criação”, brilhante projeto da
Remo Produções, que me abriu as portas do mercado teatral na capital. No mesmo
ano conheço o ator, bailarino e produtor Arnaldo Rodrigues e começarmos a
produzir juntos. Mas somente em 2007 fundamos a Cia. 2 em Cena. A ideia de
montar um espetáculo com palhaços nos levou a pesquisar a admirável arte da
palhaçaria brasileira, e fruto dessa pesquisa surgiu o nosso primeiro
espetáculo “Palhaçadas – história de um circo sem lona”, onde assino texto e
direção. A partir da pesquisa montamos outros espetáculos que integram o
repertório da companhia.
Em 2009, quando recebi o primeiro lugar no Prêmio Ana
Maria Machado pelo o texto “História de uma viagem para se encantar” tive a
oportunidade de ter um texto lançado em rede nacional, através da editora
Autores Associados – Ciranda das Letras. O prêmio despertou o desejo de me aprofundar
mais no universo literário, e ai ingressei no Curso de licenciatura em Letras
da FAFIRE – Faculdade Frassinetti do Recife. Hoje além de coordenador a Cia. 2
em Cena, também atuo como ator, palhaço, diretor, dramaturgo e pesquisador
cênico.
Manoel
Constantino –
Quais foram os fatores que o impulsionaram para a pesquisa cênica e a escritura
de textos voltados para o universo cênico?
Alexsandro
da Silva - Quando decidimos montar um espetáculo
com palhaços, tínhamos a consciência que devíamos nos apropriar dessa arte para
levar para cena. Foi ai que surgiu a ideia de iniciarmos a pesquisa
“Laboratório de Palhaçaria”. A princípio o trabalho era bem prático com
treinamento de atores e visitas aos circos, só depois é que passamos a ter
acesso à bibliografia existente sobre o tema.
Quanto à escrituração dos textos foi impulsionada pela necessidade de
alguém que organizasse a pesquisa para ser mostrada nos espetáculos, como eu já
escrevia, fiquei encarregado de tal função. Fora os textos dramáticos a
pesquisa também resulta em artigos e ensaios que são escritos por todos os
pesquisadores.
Manoel
Constantino –
Ao coordenar uma companhia, quais os caminhos que você optou para manter o
grupo unido e quais são as estratégias que proporcionam a vida econômica da Cia
2 em Cena?
Alexsandro
da Silva - Não é nada fácil está à frente
de um grupo de qualquer segmento que seja, principalmente de um grupo de artes
cênicas, diante da dificuldade que é produzir arte em nosso país. Na companhia
estamos unidos por interesses comuns: a busca de fazer um teatro de qualidade e
de vivermos dignamente da nossa profissão. Quando o grupo tem um foco é fácil
traçar uma meta para atingi-lo. O que tenho feito como coordenador, é buscar
meios para atingimos esse foco. Pensar e trabalhar o teatro com extremo
profissionalismo, até mesmo porque vivemos do que fazemos, e temos a
consciência que precisamos fazer o melhor possível para nos mantermos no
mercado. Oitenta por cento dos artistas vivem de renda gerada pela companhia,
isso implica dizer que precisamos gerar trabalho constantemente para os mesmos.
O que fazemos anualmente é um plano de venda dos nossos produtos: espetáculos,
oficinas, intervenções, show de Palhaçaria, o que nos levou a formar um grupo
de clientes que compram os nossos produtos. Além dos espetáculos, temos
conseguindo aprovar alguns prêmios e editais, a pesquisa tem o incentivo do
Funcultura e temos um núcleo de teatro-empresa que atua com campanhas
educativas em empresas e escolas.
Manoel
Constantino –
São 15 anos na estrada. Quem o influenciou, quem o motivou e o que o faz
continuar?
Alexsandro
da Silva - Nesses quinze anos de trabalho,
tive muitos anjos que contribuíram para que eu fosse o artista que sou hoje.
Pessoas que sem elas jamais teria chegado a lugar algum, de artistas a amigos e
familiares. No inicio, um dos anjos que muito me motivou, foi a atriz e
professora de teatro Bebel de Oliveira. Uma amiga-irmã de longa data, que me
iniciou no mundo das artes cênicas. Com a minha vinda para Camaragibe, conto
com a acolhida do movimento teatral da Cidade através do ator e diretor teatral
Geraldo Cosmo. Na capital contei com a motivação do gestor de cultura e diretor
teatral José Manoel Sobrinho. Pessoa que muito admiro é que me influenciou como
artista, principalmente no meu trabalho como encenador e dramaturgo. No meio circense, duas figuras, tem
sido de suma importância para o meu trabalho como palhaço e pesquisador
circense: Bóris Trindade (Borica) e Willams Santana. Sem falar, é claro, dos
artistas da companhia, parceiros de trabalho que me motivam cotidianamente. O
que me faz continuar é a possibilidade que temos de levar a arte e a cultura
para os mais diferenciados públicos, principalmente aqueles que não têm acesso.
E como palhaço e pesquisador circense é a possibilidade de contribuir para que
a arte da palhaçaria se mantenha viva.
Manoel
Constantino –
Quanto à sua escritura cênica, sua inspiração é a própria companhia, isto é, a
sua produção na literatura dramatúrgica é exclusiva para a Cia 2 em Cena?
Alexsandro
da Silva - Escrevo tanto para companhia
como para outros grupos. O trabalho com dramaturgia circense resultante da
pesquisa realizada pela companhia é que tem sido voltada para ela mesma. Mesmo
assim, este ano assinei a dramaturgia do espetáculo “A fuzarca – uma
brincadeira de rua”, do Grupo teatral Risadinha de Camaragibe, no qual trabalho
com muitos elementos da dramaturgia circense. O texto “História de uma viagem
para se encantar”, premiado em 2009 com o Prêmio Ana Maria Machado está em
processo de montagem pelo o grupo “As Maricotas”, em
Itajaí – SC. E tenho recebido convites para assinar a dramaturgia de outros
trabalhos, tanto de dramaturgia circense como dramaturgia teatral. A companhia
tem sido o lugar de formação contínua, onde pesquisamos e transformamos as
nossas pesquisas em produtos.


Quero parabenizar a Agenda Cultural e Manuelzinho pela bela entrevista com Alex, esse artista que adoro pelo seu talento e ser humano batalhador, talentoso e muito divertido.
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