Por trás das cortinas: A multiplicidade criativa de Java Araújo

Foto: Divulgação
Por Manoel Constantino

A timidez não o impediu de deixar-se encantar pelo teatro na igreja do seu bairro, nem tão pouco o medo o impediu de arriscar-se e integra-se ao grupo de teatro atuante da Mustardinha, o Teamu. A partir de então a aventura de Java Araújo foi criando asas e sua imaginação fértil dava impulsos suficientes para transformar-se num dos diretores de artes do teatro no Recife mais procurado. Design, não se sente tolhido ao abraçar diversos projetos, de diferentes diretores, muito pelo contrário, sente-se desafiado e diz, com a certeza de quem ama o que faz que o teatro é a sua casa.

Manoel Constantino – Como aconteceu o seu encontro com o teatro?

Java Araújo - Meu primeiro contato com o teatro aconteceu na Mustardinha, bairro onde cresci. Era muito tímido e resolvi me aventurar no grupo de teatro da igreja. Nesta época, eu já desenhava. Depois, me chamaram para integrar o TEAMU (Teatro Mustardinha), que era um grupo de teatro de rua. Até então fazia participava como ator. Foi quando conheci Carlos Salles, amigo e pessoa importante para me “aliciar” para o mundo das artes cênicas. Como já desenhava, ele me convidou para criar o cenário de “A Incelença”, de Luiz Marinho. Acabei não só criando o cenário, mas também o figurino. Depois disso, criei o cenário e o figurino de “Pluft, o fantasminha” e de muitos outros trabalhos. O desenho e o teatro sempre andaram de mãos dadas. Um ao serviço do outro. Outra parceria importante foi com Samuel Santos, diretor premiado da cidade, com montagens significativas. Com ele fiz “A terra dos meninos pelados”, “O amor do galo pela Galinha d'água”, “Historinhas de dentro”, entre outros. O mais recente é o figurino de “O menino da gaiola”. Sempre fui muito tímido e nunca gostei dos holofotes. O que me dá tesão é estar nos bastidores, embora minhas criações subam ao palco, através dos figurinos e cenários que desenho. Este vínculo com o teatro começou a ganhar força e foi aí que me encontrei. Desenvolver formas de vestir visualmente a cena me dão muito prazer. Buscar referências, pesquisar técnicas e tudo que possa conceituar o ambiente geográfico e poético no palco. Eu me sinto em casa.


Manoel Constantino – Como são, para você, estabelecidas as relações no seu processo criativo, com o diretor do espetáculo?

Java Araújo - Tem que haver diálogo, estar em sintonia, no sentido de perceber o que o texto e o diretor pedem e querem para encenação. As necessidades irão surgir desse diálogo. E daí, gerar uma série de desenhos, pesquisa de material, cores, texturas. Alguns encenadores já sabem o que querem, outros vão descobrindo durante o processo de ensaios. A figura do diretor de arte num espetáculo é um pouco co-diretor, no sentido de que algumas possibilidades visuais criadas sugerem cenas. É importante estar afinado com a encenação. Quando a relação não é boa, o resultado não é bom. Para além do prazer artístico, esse ofício também é muito complicado, difícil. É um trabalho de desvendar signos, símbolos, técnicas, de apreensão, de olhar. Às vezes, o erro é importante para conseguir atingir resultados satisfatórios. E muitas vezes, o prazo é apertado. Gosto das misturas de texturas e materiais. Em “Mariano, irmão meu”, por exemplo, usei muitas texturas e uma cor que une todo aquele universo das personagens. Fiz questão de comprar portas de demolição, portas que tinham um passado próprio. Não eram apenas madeiras compradas e transformadas em portas para encenação. Viagem de artista. Em cursos e oficinas que trabalhei fui aprendendo isso, e funciona bastante. As texturas deixam tudo mais orgânico. As personagens têm vida. E uso dos materiais para comungar com esta organicidade. Em “O menino da gaiola”, queimei a roupa da personagem do mendigo, rasguei e sujei. Fiquei com receio de pecar pelo excesso, por se tratar de um espetáculo infantojuvenill, mas a roupa ganhou mais vida. 

Manoel Constantino - O que faz-se necessário para que o diretor de arte tenha um mercado de trabalho permanente?  Como você desenvolve cada projeto e principalmente quando lida com várias propostas, de diferentes diretores, com diferentes universos estéticos?

Java Araújo - Já pensei em montar de fato um atelier voltado para este “mercado”, mas sempre desisto. As relações financeiras aqui, pelo menos para teatro, não existem. Todo mundo quer um cenário Broadway, te pagando pouco. A equipe sempre é muito enxuta, por conta da verba curta. E o que percebo também é que aqui tudo é muito voltado para o universo do ator, diretor. Dezenas de cursos e capacitações. Claro, é ótimo isso. Mas faltam oportunidades para figurinistas, cenógrafos, aderecistas e maquiadores se reciclarem. É preciso sair do Estado ou aguardar que algum workshop surja na cidade. Minha cabeça fervilha a cada projeto, gosto de escutar a produção, mas a cada conversa, meus pensamentos voam e, claro, vou lapidando a imaginação de acordo com a necessidade especifica de cada projeto. Vou limpando. Deixando o que serve, e reservando outras ideias para quando puder usá-las. É uma loucura trabalhar em projetos variados. Mas também é muito instigante. Cada trabalho me leva a universo e a diferentes materiais, diferentes conhecimentos e diferentes estéticas.

Manoel Constantino – Qual é o seu maior desafio hoje como designer e quais os momentos, no processo criativo, que você sente-se desafiado como artista, como um homem de teatro?

Java Araújo - Sou muito crítico com meu trabalho e como artista também sofro muito a cada processo em busca de “acertar”. Como costumamos dizer, cada trabalho é um parto. Sou psicólogo de formação e de certa forma esta profissão me ajuda na hora da criação. Sempre percebo algo da psicologia na leitura das personagens, nas cores, nas texturas. Não tenho formação acadêmica em teatro ou artes plásticas. Mas no teatro sou o artista plástico à serviço dele. Hoje, além de trabalhar com direção de arte no teatro, atuo em outras linguagens. Fiz a direção de arte para um curta chamado tubarão, além de ilustrações para páginas e capas de livros e cds. Quando não estou na função de figurinista ou cenógrafo, estou criando cartazes de peças, festivais, conceituando o material gráfico. Cada projeto é um desafio, me sinto instigado a cada empreitada.

Manoel Constantino – Qual a importância dos prêmios na sua carreira? Você acha que o Recife valoriza o artista premiado ou apenas é um reconhecimento momentâneo?


Java Araújo - É bom, mas não é tudo. É um reconhecimento pelo trabalho, é claro. Sentimos-nos reconhecidos por tal. É apenas um reconhecimento momentâneo, isso não é próprio de Recife. É bom, para enriquecer currículos para projetos, para, além disso, é esforço, ralação e estudo. Suor e lágrimas. No final o maior prêmio é poder parir mais um trabalho.

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