Geração Y quer e precisa de uma leitura mais próxima da realidade

Blog do Iphone

Por Erika Fraga e Gianfrancesco Mello

Por que os brasileiros leem pouco? Por mais que se tente explicar, as justificativas não são simples. Isso porque qualquer ação que incentive crianças e jovens ou até mesmo adultos a ler necessita de uma análise mais profunda da situação educacional brasileira. Com base nesse fundamento, conclui-se: se não há motivação para acender a paixão pela leitura, então é preciso transformar a relação que os jovens, principalmente da geração Y (nascida após 1980 até meados de 1990, que também é chamada de geração do milênio ou da internet), têm com os livros para incentivar a formação de leitores pensantes.

Esse tipo de discussão era muito mais complexo há 20 anos. Atualmente, o acesso ao livro é maior e, mesmo assim, a distância da leitura continua grande. Eu acho que temos que ter um texto interessante e próximo do que o jovem quer hoje em dia. Isso pode ajudar jovens “comuns” a se apaixonarem por textos de Machado de Assis, por exemplo”, explica Cida Pedrosa, que é poeta, advogada e produtora cultural, além de ser editora do site Interpoética.

Sennor, Cida e Raimundo do Interpoética. Foto: Mariane Bigio
Para o poeta, jornalista e publicitário Raimundo de Moraes, que também é editor do Interpoética, tudo depende do estímulo, pois as crianças ou os jovens são bombardeados por estímulos. “Eu sou de uma família de ávidos leitores e tive a sorte de em todas as escolas que estudei ter professores que adoravam ler. Se uma criança ou jovem vir que seus professores ou familiares amam ler e que isso faz parte de uma cultura, certamente eles seguirão a mesma linha de raciocínio.”

Já o jovem poeta André Monteiro, que faz parte do grupo Recite, formado por jovens poetas, explica a necessidade de haver uma reformulação dos livros paradidáticos, tornando-os mais acessíveis à realidade dos jovens. “Eu acho o sistema muito falho. Tentei promover várias mudanças na estrutura da escola que estudei, mas eles não investem em nada relativo à cultura”, pontua. Bárbara Nunes, também do grupo Recite, lembra que “os métodos avaliativos são muito estéticos e nada interpretativos”.


Jefferson Souza. Foto: Divulgação
Segundo o professor de Literatura Jefferson Souza, ainda nos dias atuais, os alunos são vítimas de duas situações: primeiro, da indústria paradidática; e segundo, da historiografia literária. “No primeiro caso, os alunos leem, mas não têm o encontro com a linguagem correta. No segundo, é tirado do alunado o contato direto com o texto. Ou seja, o currículo moderno exige algo e as escolas continuam ensinando simplesmente a história literária”, frisa.

Cientes de que, ao lado da família, a escola ocupa importante papel para a formação de leitores, o MEC e as secretarias estaduais e municipais de educação passaram a formular políticas públicas para combater essa defasagem nos índices de leitura. Em 2000, o MEC criou o Profa, um programa de formação de professores alfabetizadores com foco bastante acentuado nas práticas de leitura.

“Ainda existe um preconceito grande da Academia com aquilo que se chama literatura nova e acabam colocando isso como se fosse uma literatura marginal. Estamos a anos-luz do que o povo quer e precisa e de como chegar a essas pessoas, pois queremos empurrar a nossa educação burguesa. Tem muito preconceito e há muitos guetos do que é ou não literatura. Muitas vezes, a seleção literária das escolas não é feita por quem tem um contato direto e nem saiba da necessidade do povo”, comenta Cida Pedrosa, que é mãe e incentivadora de Francisco Pedrosa, mais conhecido como Chico, do grupo Recite.

De acordo com Jefferson Souza, os professores estão preocupados com o destino da literatura. “O método avaliativo está sem norte. As escolas estão longe da estética ideal, pois a literatura moderna exige mais do leitor e cada poeta tem sua poética pessoal. Sentimos, atualmente, a necessidade de formar leitores proficientes de literatura”, completa. Diante dessa discussão, o desafio é formar, de fato, pessoas que pratiquem a leitura e não apenas sujeitos que saibam decifrar os códigos da escrita. Isto é, a relação escolar que as crianças e os jovens têm com a leitura precisa ser implantada na sua prática cultural e social.

Grupo Recite. Foto: Divulgação
Recite – Criado pelos jovens Bárbara Nunes, André Monteiro, Francisco Pedrosa, Thiago Mercês, Anna Carolina, Penélope Araújo, Yago Santana e Raize Souza, o grupo foi formado antes do Carnaval 2012 e tem o objetivo de recitar poemas, poesias e cordéis pelo menos uma vez por mês em pontos diferentes e estratégicos do Recife. As apresentações são gravadas e divulgas no YouTube para melhor propagar a arte.




Literatura no meio digital

Banco de arquivo do Google
A relação dos jovens com a literatura, em geral, deve ser iniciada pelos pais e dada a continuidade nas escolas.  Primeiro, tem que se criar o hábito da leitura na criança para que ela seja estimulada a procurar novas fontes de pesquisa. Porém, quando existe uma lacuna nesse processo inicial, a busca pelo conhecimento literário no meio digital também fica fragilizada.

Se nas escolas o despertar para a literatura ainda é um desafio, imagine no ambiente digital, que proporciona uma vasta opção de entretenimento para os jovens. Vivemos em uma Era onde a cultura, principalmente a literatura, não pode virar as costas para a web. Justamente para se enquadrar nesse panorama, surgiu o Interpoética (www.interpoetica.com.br). Criado em 2005, por Cida Pedrosa, em parceria com Sennor Ramos (produtor cultural e web master) e Raimundo de Moraes, o site iniciou com a proposta de se tornar um espaço democrático dedicado aos escritores locais.

Em 2011, o site teve 1 milhão de acessos, quantidade suficiente para consolidá-lo como o portal literário mais atuante do Estado. Também se destaca por possuir o maior acervo on-line dedicado à poesia pernambucana e conta com a ajuda dos colunistas Alexandre Furtado, Carminha Bandeira, Cícero Belmar, Cleyton Cabral, Elisabet Gonçalves, Cyl Gallindo, Geórgia Alves, Inácio França, Jomard Muniz, Lara, Rita Marize e Wellington de Melo. Mas o que antes era “dedicado” aos poetas, tornou-se de domínio público, principalmente para os jovens que estão iniciando seus primeiros contatos com a literatura.  “Não nos preocupamos apenas com o trabalho desenvolvido no espaço virtual, o Interpoética tem como meta a realização de oficinas, que são ministradas pelos nossos colaboradores”, comenta Cida.

Contudo, torna-se quase impossível falar de estímulos literários na internet, sem ligarmos ao panorama escolar. O despreparo de alguns professores reflete diretamente na formação dos alunos. Raimundo de Moraes relata que as escolas devem incentivar não só leituras de escritores clássicos, como também dos atuais.  Pelas experiências adquiridas nas oficinas ministradas em todo o Estado, Cida Pedrosa levanta a bandeira de que o importante é fazer a poesia chegar ao coração das pessoas. Segundo ela, para que esse encantamento aconteça é primordial que se conheça o verso do ponto de vista oral, pois dessa forma o interesse pela leitura se torna maior. “Você levar um texto clássico para um menino que muitas vezes é analfabeto funcional é um verdadeiro absurdo. Por que não levar para a sala de aula cordelistas ou poetas como o Miró? Se isso for feito, veremos o encantamento que eles provocam nos jovens”, defende.

O web master Sennor Ramos revela que os sites de literatura ainda esbarram no desafio de seduzir novos leitores.  “É muito difícil ver um jovem ir atrás de textos na web sem antes ter uma prévia orientação. Não se descobriu uma forma eficiente de estimulá-los a buscar as informações. Esse estímulo está sendo feito pessoalmente nas escolas e em nossas oficinas”, revela.

Ainda de acordo com Ramos, o Interpoética tem partes interativas e possui um acervo grande, que está sempre sendo alimentado. “Tem muito escritor que só usa a internet para enviar e-mail e, por isso, a navegabilidade dele é bem simples.” O Interpoética realiza trabalhos nas comunidades de Caranguejo Tabaiares e Brasília Teimosa. “Neste ano, o nosso objetivo é sair do virtual para o papel. Lançaremos um livro em abril e queremos fazer a estreia dos adolescentes poetas até 21 anos conosco”, diz Raimundo de Moraes.

Livro de papel X Livro digital - Quando o assunto é a extinção do livro, as opiniões se divergem e se torna quase impossível traçar um panorama exato em relação ao assunto. De acordo com Sennor Ramos, existem previsões de que em dez anos os tabletes irão vender mais do que notebook, ocasionando a extinção dos livros.  Já Cida Pedrosa acredita que o livro em grande escala deixará de ser produzido e passará a ser um objeto de fetiche para os mais aficionados. “Imagino que essa distribuição nacional de livros para as escolas públicas tem dias contados, todavia não vejo isso com tristeza. Acho que as tecnologias devem conviver irmãmente, porque o livro de papel foi também um grande instrumento tecnológico”, esclarece.

Com uma opinião híbrida, Raimundo de Moraes imagina que a geração futura irá sepultar o livro como conhecemos, entretanto frisa que o tablete não é o fim dessa transformação. “Não podemos colocar ponto final nas tecnologias. Determinados ícones são fortes para a humanidade e o livro sempre foi muito forte. Não acredito que, como objeto que você possa folhear, ele acabará para sempre. No entanto, a sua circulação comercial tende a decrescer com o passar dos anos.”

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