Os tons do Recife

Texto: Raquel Freitas
Fotos: Anax Botelho

Sentado em um banco improvisado, rodeado de tintas, cerâmicas e um pano que ainda permanecia branco, o artista Douglas Victor, de 26 anos, começa a ensaiar os primeiros traços de uma pintura que traduzirá um sentimento capaz de contagiar quem passa apressado no Pátio do Livramento no Bairro de Santo Antônio. A pintura surge de movimentos circulares, e com a ajuda de um pano ele vai dando os últimos retoques na cerâmica. A presença do artista começa a ser percebida quando uma roda de curiosos se forma ao redor do pintor, e é justamente a partir desse momento que a curiosidade passa a se tornar uma apreciação pela obra de arte. O interesse pela pintura surgiu muito cedo, Douglas conta que coloria as capas das provas que eram entregues pela professora, e sem saber já estava produzindo arte. Segundo Douglas, viver de arte é muito difícil, pois as pessoas não dão valor ao que é produzido. Foi nesse momento que ele decidiu ir para rua, afinal de contas o trabalho tinha que ser conhecido pelas pessoas. E foi misturando as tintas que percebeu a tonalidade e a essência certa para chamar a atenção de quem observa, criando em suas peças uma identidade própria, que vai desde a escolha do tema até a concretização para a venda. “Na rua as pessoas gostam de adquirir o mesmo produto, é comum mais de uma pessoa escolher a mesma imagem, por isso escolhi o paisagismo”, explica o artista. A escolha do tema não foi aleatória, muito menos por haver uma identificação maior com o desenho, mas simplesmente por universalizar o seu trabalho na cerâmica. Apesar de possuir outras atribuições como grafitar, tatuar, fazer pintura em tela, Douglas diz que os trabalhos paralelos só foram reconhecidos a partir do momento em que começou seu trabalho na rua. “Eu adoro a rua”, sintetiza. Mas como qualquer trabalho autônomo a rua é cercada de imprevistos, impossibilitando o artista de sobreviver exclusivamente dela. A chuva, os maus dias no comércio refletem diretamente na venda da cerâmica, por este motivo os outros trabalhos assumem um papel relevante, tanto na questão econômica como na exploração do próprio artista em outros segmentos. Sem uma especialização acadêmica, Douglas aperfeiçoa suas técnicas através de conversas com outros artistas, e diz que a cerâmica foi o suporte que o ajudou a entender técnicas da pintura – como sombra, luz e a perspectiva. Questionado a respeito de sua influência sobre outros artistas, Douglas se desprende de toda a vaidade e diz que gosta de dividir suas experiências. “Eu cheguei a dividir o meu espaço com uns três ou quatro artistas, na mesma rua, eu cheguei até a dar um pouco da minha tinta a eles”, afirma com um com ar de desbravador. “Me inspira a fazer, ele [Douglas] sabe disso, eu também trabalho com arte, parei aqui, vi ele fazendo e estou até tentando fazer, estou pegando a manha, estou aprendendo com ele, arte é assim... um passa pro outro”, afirma Edilson Mariano da Silva, 37 anos, que estava apreciando a pintura de Douglas na rua no momento da reportagem.
Sem espaço em galerias renomadas, Douglas vai disseminando sua arte como pode. E nessa viagem pelas ruas ele vai carregando suas experiências, seu banco improvisado, suas tintas e um único sonho: ser reconhecido como artista.
Se existe uma razão para os artistas estarem nas ruas é a garantia de que existe público para isto. Basta fazer uma caminhada mais prolongada pela cidade para reconhecermos alguns traços dessa efervescência. E o próximo destino é a Rua Nova. Localizada ao lado da Matriz de Santo Antônio – que na época do domínio holandês em Pernambuco era conhecida por Casa da Pólvora, justamente por abrigar um arsenal em suas estruturas – a rua se destaca por ser elo entre as principais avenidas da cidade, a Conde da Boa Vista e a Dantas Barreto. Mas seu destaque não se deve somente a isto. Entre camelôs e vendedores de flores, a arte encontrou o seu espaço. E foi nesse contraste que os pincéis e as aquarelas de Eraldo Lourenço de Melo, 38 anos, deram forma aos quadros expostos na lateral da igreja. Na rua há onze anos, Eraldo conta que o espaço possibilita uma interação maior com o público criando um reconhecimento capaz de difundir sua obra. “Só em Portugal eu tenho uma pessoa que me encomendou dezesseis quadros”, enfatiza o pintor. A proliferação da sua obra se dá especialmente por apresentar características bucólicas, em contraste com ambiente caótico em que ele pinta: as ruas da cidade grande. Além de pintar aquilo que é de sua preferência, que são as rosas, Eraldo diz que pinta o que for encomendado. “Eu não tenho nenhum trabalho paralelo, eu vivo somente da arte, por isso aceito encomendas”, afirma. Ele veio para o Recife com a mãe há 13 anos e nunca mais voltou para Calçados, cidade onde nasceu localizada a 215 quilômetros da capital. “A vida era muito difícil lá, eu sempre quis vir pra o Recife tentar a vida, se eu fosse ficar lá eu ia trabalhar na roça”, lembra o pintor. A pintura se revelou desde a infância, e na tentativa de encontrar um norte para o seu dom ele se arriscou na pintura de parede, o que não deu muito certo pela falta de técnica. A partir daí ele resolveu se dedicar a pintura a óleo, e com a ajuda de algumas pessoas da Matriz Santo Antônio a sua arte passou a ter mais espaço. Os quadros de Eraldo são um reflexo de tudo o que foi vivido nesses treze anos no Recife, como ele mesmo resume, “o que me inspira são as relações mais simples da vida, como a família, um pôr do sol, e tudo isso sem esquecer de um fator primordial, é preciso estar em paz para pintar, se pudesse resumir o que significa pintar eu resumiria em uma palavra, paz”.
Se para Eraldo pintar significa paz, para Tércio dos Santos Moura pintar faz parte de uma tradição que foi transmitida de pai para filho. Filho de pintor, Tércio começou sua carreira muito antes de ter em mente o significado da palavra arte. Aos onze anos de idade ele ia para o centro da cidade (Recife) construir um futuro moldado pelos becos e vielas da capital de Pernambuco. Depois de 45 anos de carreira, Tércio reconhece as dificuldades enfrentadas por um artista de rua. “Ainda hoje o artista não é valorizado”, afirma Tércio.
Da mesma forma que Tércio herdou o dom do pai, o seu filho Rafael Moura, 27 anos, também segue os seus passos. Para Tércio, a influência surgiu de forma natural, de modo que ele não dá palpite no trabalho do filho, eles apenas dividem o mesmo espaço na Rua Nova. “Rafael pinta em casa, eu só trago as obras dele pra cá, para as pessoas comprarem também”, afirma. Nas telas a presença dos traços rebuscados imprime a qualidade aliada à experiência do artista. Depois de pintar em várias partes da cidade, como na Ponte Maurício de Nassau, na Avenida Conde da Boa Vista, Tércio está definitivamente instalado na Rua Nova. No momento da reportagem, Tércio estava pintando um quadro encomendado por Ivete Rodrigues da Silva, 58 anos, que dava palpite enquanto a obra estava sendo produzida. “Coloca mais um pássaro desse lado”, afirma apontando com o indicador para o local. Depois que o quadro ficou pronto, Dona Ivete admirou e afirmou com um ar de satisfação, “Eles são os verdadeiros artistas, uma pessoa que faz uma coisa dessas, que pinta a natureza tão real eu fico encantada de verdade”. Ela decidiu comprar o quadro no dia anterior, voltando no dia seguinte para buscá-lo. O quadro de quase três metros seguiu o itinerário até Rio Doce, deixando no lugar uma espécie de afirmação: A arte na rua tem o seu valor, tem o seu público, e principalmente tem quem aprecie.


Dona Ivete e o pintor Tércio Moura
 

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