Ana Japiá

Por Felipe Mendes

Atriz, diretora e cenógrafa, Ana Japiá também é professora de teatro e escreve peças para o universo infantil. Tal diversidade de atuações em diferentes aspectos da montagem cênica é fruto de uma paixão nascida na adolescência e que a levou a uma aproximação definitiva ao teatro. Recentemente Ana foi premiada pela Funarte para a realização da peça Minha Cidade, um trabalho que permitiu à artista comunicar-se com o seu lado educadora ao lançar mão da experiência que teve com 200 crianças, durante o seu curso de pós-graduação. A proposta consistiu em construir, com essas crianças, cidades imaginárias com blocos de madeira.


Quando se dá o primeiro contato com o teatro?
Desde criança estive envolvida com atividades artísticas. Estudei balé clássico por oito anos; aprendi a tocar violão com meu avô e depois no Conservatório Pernambucano de Música; fiz canto coral com o maestro Nilson Santos; e na adolescência participei do grupo de teatro da escola, com a sorte de ter como professor Alfredo Borba (filho de Hermilo Borba Filho), meu primeiro mestre. Mais tarde ingressei no Curso de Formação de Ator da Fundaj, tendo estudado com José Manoel, Vavá Paulino, Leila Freitas e George Moura. Chegada a hora de cursar uma universidade, os testes vocacionais só confirmaram meu desejo de fazer Educação Artística, mas a pressão familiar e a insegurança do mercado para essa área me levaram a cursar Direito e História concomitantemente. A distância do teatro, no entanto, durou pouco, pois alunos de História, na UFPE, mantinham um grupo de teatro chamado Teatro Vivo e a experiência com esse grupo foi tão significativa que me fez abandonar os dois cursos e fazer novo vestibular, dessa vez para Educação Artística. Daí pra frente o teatro virou caminho sem volta. Seguiram-se vários cursos e oficinas nas diversas áreas do fazer teatral, além de especialização em Arte e Educação. Vale ressaltar a importância, para a minha formação, do prazer de assistir teatro, pois não há exercício melhor para a educação estética e o desenvolvimento do senso crítico.

Como o interesse pelas artes cênicas vira realização artística?
O fato de ser “plateia” assídua de teatro para a infância, pois esse sempre foi um dos programas preferidos das minhas filhas, despertou em mim o interesse por esse segmento (tema, inclusive, da minha monografia de pós-graduação). Ainda na universidade, com a ajuda do professor Paulo Michelotto, escrevi meu primeiro texto teatral para crianças: No Mundo da Criação, encenado em 1996 pelo grupo Teatro Universitário, formado por alunos de vários cursos do Centro de Artes e Comunicação da UFPE. Em 2002, junto com outros recém-formados em Arte-educação, criamos o Grupo Teatro Marco Zero. Nossa primeira encenação foi a partir de meu segundo texto, Um Livro de Fábulas (2003). O trabalho seguinte foi Nau à Vista (2005), com formas animadas e utilizando-se do horizonte da praia de Boa Viagem como cenário vivo. Recentemente encenamos meu mais novo texto: Minha Cidade, para o qual fui contemplada com bolsa de criação artística da Funarte, tendo desenvolvido, além de pesquisa bibliográfica, pesquisa de campo com cerca de 200 crianças de escolas públicas e privadas do Recife. Em sala de aula foi proposta uma dinâmica de construção de cidades imaginárias com pequenos blocos de madeira. Nesse trabalho busquei seguir da melhor forma a orientação do professor Marco Camarotti descrita em sua obra A Linguagem do Teatro Infantil, que diz: “no teatro infantil é a linguagem da criança e o seu ponto de vista que devem predominar e orientar todos os setores de sua realização”. Com o grupo Marco Zero produzi ainda, de 2003 a 2005, a mostra Curta Cena – Mostra Teatral de Cenas Curtas de PE – que levou ao palco, nas três edições, cerca de 60 espetáculos com 10 minutos de duração.

O que enfrenta um realizador de teatro para conseguir viabilizar peças e temporadas?
Não fosse uma necessidade, uma pulsão de vida, já teria desistido de ser artista. Dentre as dificuldades, posso pontuar a falta de reconhecimento de que a produção artística é bem de interesse público. São necessários investimentos em vários setores: formação do artista, formação de plateia, fomento à pesquisa, manutenção de grupos e espetáculos, investimentos em equipamentos, etc. Outro entrave é a falta de organização dos artistas como categoria. E sem a força do coletivo, as conquistas ficam mais difíceis. Nos dois últimos anos, o movimento GRITE – Grupos Reunidos de Investigação Teatral vem apontando o caminho para cooperação entre os artistas e reunindo forças para reivindicar espaço para os grupos de pesquisa.

Como você vê a realidade cênica atual de Pernambuco?
Em Pernambuco sentimos o reflexo da regionalização nos editais da Funarte,  instituição que democratizou o acesso aos incentivos federais. A política de interiorização do Funcultura também vem viabilizando produções para além da capital. Os editais das empresas que investem verba na cultura em troca de isenção fiscal também cumprem papel importante na produção. Mas a verba ainda é pouca e falta estrutura por parte dos gestores para lidar com os trâmites burocráticos. As produções têm crescido em quantidade e qualidade e a diversidade de tendências é uma característica da produção teatral de nossa cidade. É preciso não perder de vista a necessidade de se contemplar de forma equânime, todos os artistas.

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