Exposição "Delicado é o Espinho", de Mozart Santos, reúne produção inédita que atravessa sertão e periferia
Crédito: Julia Thompson - Divulgação
Bainhas de peixeiras, penas, chifres, peles, sementes e texturas reforçam sobre a convivência entre força e fragilidade em “Delicado é o Espinho”, exposição individual do artista pernambucano Mozart Santos, que abre nesta quinta (15), na Galeria Arte Plural. Com curadoria da jornalista e pesquisadora Fabiana Moraes, a mostra que investiga como se constroem as imagens do Brasil e quem tem o poder de produzi-las, fica em cartaz até 27 de novembro com uma coleção de peças inéditas que compõem uma paisagem áspera e terna.
Ao combinar materiais orgânicos, objetos associados à cultura popular e elementos que carregam marcas de uso, memória e pertencimento, Mozart constrói uma linguagem que tensiona as fronteiras entre pintura, escultura, e instalação.
Em sua pesquisa, a matéria não funciona apenas como suporte ou recurso formal, mas como portadora de códigos culturais e modos de existência, quando o artista desloca esses elementos de seus contextos habituais e os reorganiza em composições que desafiam hierarquias entre referências populares e eruditas, tradição e contemporaneidade.
“Mais do que representar o sertão, a mostra recusa o olhar pronto, construído pela televisão e pela indústria cultural, e devolve a esse território, e a quem dele veio (remixado, reorganizado, reelaborado) o direito à complexidade, à delicadeza e ao volume. É uma paisagem que não é só sertaneja, é brasileira, periférica, contemporânea” aponta Fabiana Moraes.
Sem reforçar o sertão do clichê - o do cabra macho, do sol a pino, da dureza -, o artista opera pelo avesso, atento ao delicado que também habita esse território. As bainhas de couro ganham nomes como Lambedeiras e Igbin, recebendo, às vezes, a proteção de penas e metais.
“O título anuncia a chave da exposição. Os espinhos se revelam menos arma do que defesa, como os pelos de uma taturana ou a casca grossa de seres que se unem para se proteger", reforça a curadora.
A escolha dos materiais é parte central dessa investigação, com uma materialidade que carrega uma dimensão sensorial e cultural. É dessa lógica que nasce Colônia, obra em que buchas vegetais e um aparato sonoro formam um coletivo vivo de criaturas que se juntam porque são frágeis.
“O sertão não é uma imagem parada no tempo, nem um território definido pela falta. Ele está na cidade, nos corpos, nos objetos e nas formas de imaginar o mundo. Meu trabalho parte dessas memórias, mas não para reproduzi-las como herança intocável. Quero deslocá-las, criar outras relações entre materiais, símbolos e histórias que quase sempre foram vistas de maneira isolada ou reduzidas a estereótipos. Existe uma potência estética e política nessas referências, e me interessa justamente o que acontece quando elas deixam de ocupar um lugar periférico no imaginário e passam a produzir outras leituras sobre o Brasil,” explica Mozart Santos.
Também atravessa a mostra, uma forte presença de religiosidades de matriz africana, indígena e da cultura popular. Madeira e metal, elementos que evocam o despacho, as referências à Jurema e ao Catimbó, a memória dos mestres do Maracatu e do Cavalo Marinho que tocam juntos segurando a guiada. Tudo convive com a devoção católica popular, numa espiritualidade mestiça que é a do próprio Nordeste. Não por acaso, o artista aproxima sua pesquisa de festejos como a coroação do Rei do Congo, que sobrevive no sertão como herança negra e diaspórica.
Morador do Ibura, Região Metropolitana do Recife, a série surgiu em 2024, onde o artista reencontrou em suas andanças por Floresta (PE), os objetos de sua própria infância: a bucha vegetal, o badoque, a pipa e as bodegas de balcão.
Em Delicado é o Espinho, o sertão não aparece como paisagem distante, mas como aquilo que migrou com os êxodos rurais e se enraizou nas periferias das grandes cidades, do Ibura a São Paulo, para onde o próprio artista se mudou. O "animal sertanejo" que dá nome a parte das obras é também o nordestino que desembarca no Sudeste e é olhado como uma espécie estranha. É o rapaz que volta para a própria terra e tenta se relocalizar.
Sobre o artista
Com uma trajetória que inclui exposições e projetos no Brasil e no exterior, Mozart Santos conta com trabalhos apresentados em instituições como o Museu da Língua Portuguesa, o MAC USP, o Centro Cultural Banco do Brasil e o Architekturmuseum der TUM, em Munique. Seu currículo reúne participações em diversos salões de arte brasileiros, entre eles o 51º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional-Contemporâneo (SARP), o 23º Território da Arte de Araraquara, o 9º Salão de Aquarelas de Piracicaba e o Salão Arte Londrina 09.
Co-criador do @projetemos, seu interesse pela arte e tecnologia atravessa sua trajetória, desde as projeções de imagens e palavras no espaço urbano até a criação de instalações que incorporam som, sensores e sistemas eletrônicos. Em sua pesquisa, tecnologias digitais e saberes manuais não são entendidos como campos opostos, mas como diferentes maneiras de produzir conhecimento, experiência e interação.
Serviço
Delicado é o Espinho, de Mozart Santos
Abertura: 15 de outubro, às 18h
Visitação: Até 27 de novembro, de segunda a sexta, das 9h às 18h, e sábado, das 14h às 18h
Onde: Galeria Arte Plural, Rua da Moeda, 140, Recife Antigo, Recife (PE)
Quanto: Entrada gratuita
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