Exposição das designers Maria Eduarda Belém e Sofia Lobo transforma referências mouras, o cobogó criado no Recife e a paisagem gráfica da capital pernambucana em 27 painéis de design.
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| @ricardo_lima_fotografia |
Antes de se tornar um dos elementos mais reconhecidos da arquitetura moderna brasileira, o cobogó nasceu no Recife, no final da década de 1920, como uma solução capaz de filtrar a luz, favorecer a ventilação e criar uma transição entre os espaços internos e externos. Seu princípio guarda relação com uma tradição muito mais antiga: a dos muxarabis, estruturas vazadas de origem árabe difundidas pela Península Ibérica e incorporadas, ao longo do tempo, à arquitetura brasileira.
É desse encontro entre a herança moura, a invenção recifense do cobogó e a paisagem construída da cidade que nasce Recife Anda Luz, exposição das designers Maria Eduarda Belém e Sofia Lobo. A mostra reúne 27 composições gráficas transformadas em painéis de diferentes dimensões, produzidos em MDF e recortados a laser.
O título sintetiza o próprio princípio do projeto. Recife Anda Luz faz uma aproximação sonora com Andaluzia, região espanhola profundamente marcada pela presença moura e pelo uso de pátios, treliças e elementos vazados. Ao mesmo tempo, fala do movimento da luz sobre a cidade e das imagens que ela produz ao atravessar grades, cobogós, vitrais e fachadas. Nas peças da exposição, a luz não apenas ilumina: projeta sombras, redesenha os padrões e passa a fazer parte da obra.
Aberta a visitação, no Museu Murillo La Greca, no Recife, a exposição aproxima arquitetura, arte, design de superfícies, fabricação digital e decoração. As peças também apontam para aplicações em projetos de interiores, podendo ser desdobradas em divisórias, biombos, painéis decorativos e outras soluções espaciais.
A coleção foi desenvolvida a partir de uma pesquisa sobre a paisagem gráfica da capital pernambucana. As designers percorreram lugares como o Cinema São Luiz, o Teatro do Parque, o Teatro de Santa Isabel, os mercados de Santo Amaro e de São José, o Museu do Trem e a Ponte Velha. Também observaram grades residenciais, vitrais, pisos, fachadas, elementos do casario e obras de artistas ligados à cultura visual de Pernambuco.
Essas referências, porém, não aparecem como reproduções literais. Maria Eduarda e Sofia misturam fragmentos de diferentes lugares e épocas para criar novas paisagens gráficas.
“Nenhuma delas representa um lugar específico. Todas são meio misturadas”, explica Sofia Lobo.
Em uma mesma composição podem coexistir o desenho do piso do Teatro de Santa Isabel, um vitral de Marianne Peretti, uma grade residencial e formas presentes na obra de Francisco Brennand. O resultado evoca o Recife sem transformá-lo em ilustração ou cartão-postal.
“É uma leitura gráfica da paisagem do Recife, traduzida em uma peça de design”, afirma Maria Eduarda Belém.
“A ideia é revelar a cidade por meio da luz, da sombra e da relação entre cheios e vazios”, completa Sofia.
Uma tradição brasileira reinterpretada
Na arquitetura do Recife, elementos vazados nunca tiveram uma função meramente decorativa. Grades, treliças, vitrais e cobogós participam diretamente da relação entre clima, ventilação, luminosidade e vida cotidiana. Eles permitem a circulação do ar, protegem os ambientes da incidência direta do sol e criam diferentes graus de transparência entre a casa e a rua.
Esse repertório resulta do encontro de diversas matrizes culturais. A influência árabe chegou ao Brasil mediada pela arquitetura portuguesa e permaneceu visível em soluções como os muxarabis e as treliças. Mais tarde, o desenvolvimento do cobogó no Recife deu a esse princípio uma expressão moderna, brasileira e adaptada ao clima tropical.
Criado pelos engenheiros Amadeu Oliveira Coimbra, Ernest August Boeckmann e Antônio de Góis — cujas iniciais deram origem ao nome cobogó —, o elemento ultrapassou as fronteiras de Pernambuco e foi incorporado a projetos de nomes centrais da arquitetura moderna brasileira.
Em Recife Anda Luz, Maria Eduarda e Sofia retomam essa linhagem sem repetir suas formas tradicionais. Enquanto muxarabis, treliças e cobogós geralmente são construídos a partir da repetição regular de um mesmo módulo, as designers propõem composições abertas, assimétricas e formadas pela combinação de diferentes referências.
“Queríamos romper com essa repetição. Criamos peças que podem funcionar como módulos, mas não dependem da simetria para construir um padrão”, explica Maria Eduarda.
Alguns desenhos preservam elementos reconhecíveis, como o traçado do Marco Zero ou uma grade em forma de abacaxi encontrada em residências do bairro de Casa Amarela e em cidades do interior de Pernambuco. Em outros, as referências se dissolvem completamente em novas tramas.
Da paisagem urbana aos interiores
A exposição apresenta uma estrutura com a coleção completa e nove composições ampliadas, instaladas de modo a estabelecer uma relação direta com o espaço do museu. Algumas peças são afastadas das paredes para permitir que os desenhos vazados se multipliquem em projeções de sombra.
“A ideia é mostrar tanto a peça quanto o desenho que a sombra produz. Quando a luz incide de forma direta, ela reproduz o padrão; quando muda de direção, a imagem se transforma”, explica Maria Eduarda.
Os painéis transitam entre obra artística e objeto de design. A pesquisa também abre possibilidades para sua aplicação em interiores e projetos arquitetônicos, como divisórias, biombos, revestimentos e estruturas de separação de ambientes.
“A ideia é trazer para dentro dos espaços a estrutura que observamos na cidade — não apenas o desenho das grades, mas também a luz e as sombras que elas projetam”, afirma Sofia.
Para o artista e designer Ramsés Marçal, é justamente esse trânsito entre diferentes campos que torna o projeto singular:
“Mais do que reinterpretar elementos da arquitetura recifense, Recife Anda Luz investiga como eles podem dar origem a novas formas de projetar. Ao articular pesquisa, experimentação e linguagem visual, Maria Eduarda Belém e Sofia Lobo constroem um trabalho que amplia as possibilidades de diálogo entre arte, design e arquitetura e oferece uma contribuição original ao design brasileiro contemporâneo.”
Uma pesquisa que atravessa materiais e territórios
Recife Anda Luz amplia uma investigação iniciada por Maria Eduarda e Sofia durante a residência artística Se Permuta, realizada em Havana, em 2018. Na ocasião, as duas começaram a transformar paisagens e elementos arquitetônicos em composições gráficas recortadas em tecidos.
“Na época, aquelas composições foram apresentadas como obras em tecido. Com o tempo, começamos a imaginar como essa linguagem poderia ganhar novos suportes e dialogar com outros contextos”, conta Maria Eduarda.
Desde então, o procedimento passou a integrar o repertório criativo da dupla e reapareceu em projetos desenvolvidos em diferentes escalas e materialidades. Nos painéis de Recife Anda Luz, a linguagem gráfica encontra a rigidez do MDF, a precisão do corte a laser e a dimensão imaterial da luz.
A apresentação do estúdio Remolina
A exposição também marca a apresentação pública do Remolina, estúdio de arte, design e paisagem criado por Maria Eduarda Belém e Sofia Lobo.
A parceria entre as duas já vinha sendo construída em trabalhos que articulam território, cultura material e linguagem visual. Entre eles está Plantas Mágicas de Pernambuco, apresentado no Museu Cais do Sertão, para o qual desenvolveram uma coleção de padrões inspirados nos usos medicinais e ritualísticos da flora pernambucana, aplicados a uma série de túnicas de algodão.
O Remolina investiga paisagens e repertórios culturais para transformá-los em objetos, imagens, superfícies e experiências espaciais. Seus projetos atravessam as fronteiras entre arte, design, arquitetura e paisagismo.
Recife Anda Luz é o primeiro trabalho apresentado publicamente sob a identidade do estúdio e inaugura um novo capítulo na trajetória colaborativa das duas designers.
Maria Eduarda Belém é artista, mestra e doutoranda em Design pela Universidade Federal de Pernambuco. Integra o coletivo Gráfica Lenta, desenvolve uma pesquisa sonora no duo Disk Mistério e participou de projetos como Loiça Coral, Mata Branca e ECO.
Sofia Lobo é designer e ilustradora, com atuação em estamparia e design de superfícies desde 2006. Passou por marcas como Estúdio Zero e Ovo e é fundadora da Estampa Banana e da Sra. Fuyu.
Arquitetura, identidade e memória
“A luz, a sombra, a ventilação e o desenho dos vazios fazem parte da memória afetiva do Recife e reforçam o sentimento de pertencimento de quem vive a cidade. Reinterpretar essa linguagem arquitetônica em uma abordagem contemporânea é valorizar nossa identidade cultural e criar conexões entre patrimônio, design e inovação. Mais do que objetos de design, essas peças preservam a memória e transformam a arquitetura em uma experiência sensível.”
Diogo Viana, arquiteto e urbanista
“O trabalho concebido por Maria Eduarda e Sofia se apresenta como um resgate da influência histórica das artes decorativas observada na nossa arquitetura, por meio de uma releitura sagaz desses elementos tão representativos e presentes no inconsciente coletivo dos recifenses.”
Múcio Jucá, arquiteto e urbanista
Recife Anda Luz é um projeto viabilizado pelo Sistema de Incentivo à Cultura — SIC, da Prefeitura do Recife, por meio da Secretaria de Cultura e da Fundação de Cultura Cidade do Recife.

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