Cepe lança escritos inéditos da revolucionária Alexina Crêspo
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| Francisco Julião e Alexina com as filhas Anatailde e Anatilde (1946) | Foto acervo Familiar |
Livro reúne textos produzidos entre as décadas de 1980 e 2000 pela autora, uma das lideranças das Ligas Camponesas e viúva do advogado Francisco Julião
A pernambucana Alexina Crêspo (1926-2013) completaria 100 anos no próximo dia 30 de junho. Dona de uma história singular, a militante revolucionária tem a trajetória pouco estudada. Geralmente é lembrada como a mulher, ou a viúva, de Francisco Julião (1915-1999), advogado e líder das Ligas Camponesas, com quem teve quatro filhos. Ela foi além de esposa e mãe. Exerceu papel fundamental nas Ligas, como o de manter a comunicação internacional deste movimento de trabalhadores rurais. Antes das Ligas, atuava nas atividades políticas do Partido Comunista Brasileiro (PCB) no meio urbano. Entre tarefas e desafios, escrevia, em verso e prosa. Parte dos textos de Alexina Crêspo, uma produção inédita, está em Os poemas de Apolo e outros escritos, livro organizado por Raul Calle de Paula, bisneto da autora, e publicado pela Cepe Editora. O lançamento acontecerá na terça-feira (30), às 19h30, dentro da programação da Fundaj (Casa Forte) que marca o centenário da militante e poeta.
Raul Calle de Paula conviveu por 18 anos com a bisavô e há anos vem organizando o acervo deixado por Alexina. “O que me motivou a produzir o livro foi tanto a dimensão quanto o esquecimento sobre a vida e a obra dela, além, claro, do afeto pessoal. Ela foi uma mulher imensa, com uma biografia e uma produção independentes de Francisco Julião”, assegura.
Os textos selecionados foram produzidos por Alexina após o seu retorno do exílio ao Brasil, entre as décadas de 1980 e de 2000. Com 124 páginas, o livro reúne 34 escritos, além de 22 reproduções de fotos, documentos e recorte de jornal. “Foi o que conseguimos resgatar de sua voz, uma vez que grande parte do que (ela) escreveu acabou perdendo-se em razão das vicissitudes políticas que envolveram sua existência”, disse o organizador. Alexina e os familiares foram exilados em três países. De 1964 a 1970 viveram em Cuba, onde ela se encontrava para o casamento da filha quando ocorreu o golpe de Estado no Brasil. Mudaram-se para o Chile em 1970, com a vitória do socialista Salvador Allende, e lá permaneceram até a derrubada do governo em 1973. Por fim, a Suécia, de 1973 a 1980.
Carta para Aurora é o primeiro texto autoral do livro. A correspondência foi escrita por Alexina para a mãe, Aurora Florida de Souza Lins. Nunca entregue à destinatária, é considerado um “manifesto das saudades e das ressalvas” pelo organizador do livro. “Minha mãe querida! Aqui estamos nós conversando. Sim, porque as cartas são conversas silenciosas. Lendo-as estamos ouvindo a voz das palavras escritas e sentindo a alegria ou a dor do que dizem em silêncio”, afirma.
Os outros 33 escritos estão organizados em quatro partes. A primeira parte reúne os dez Poemas de Apolo, datados de 1984, a exemplo de Pontes, Tempestade, Insônia e Revolução. De versos curtos, Insônia é, conforme o organizador do livro, é uma janela para o estado de espírito que permeia os escritos de Alexina de meados dos anos 1980. Na última das três estrofes, diz a autora: “Com os olhos abertos, / fitando o silêncio, / cobri-me / de desejos, de sonhos, de esperanças… / E a insônia / não me deixou / mais dormir…”. A segunda parte dos escritos traz 11 criações literárias da autora, sendo seis poemas, enquanto a terceira possui um texto, de 1999. Na quarta parte estão agrupados 11 poemas da primeira década do Século XXI, entre 2007 e 2009, quando a morte se aproxima. Aqui, os versos são de consciência da finitude: “Se eu / tivesse tido / mais tempo, / deitaria / à sombra de uma árvore / para ouvir / o choro baixinho / do rio levando / um passarinho ferido.”
No prefácio, a poeta Cida Pedrosa diz não haver como sair ileso frente aos textos de Alexina. “Debruçar-se sobre os escritos dessa autora é um deleite. Você encontra a coragem em cada página, a liberdade em cada linha, o pulso em cada palavra”, assegura. E completa que, diante da história de uma mulher obrigada a ficar distante da pátria e da família, havia a possibilidade de encontrar textos duros e pessimistas. Mas o que se ler é o oposto. Para Cida, autora de Solo para vialejo (Cepe Editora, 2019), eleito o Livro do Ano pelo Prêmio Jabuti, em 2020, a poesia de Alexina é solar e de extremo acreditamento na transformação do mundo. “Sem contar com a enxurrada de ternura que habita cada carta. Mesmo quando a melancolia pulsa, o que ela nos entrega é uma confiança inabalável na formação de um tempo novo”, frisa.
Serviço:
Lançamento do livro Os poemas de Apolo e outros escritos
Quando: 30 de junho de 2023, terça-feira
Hora: 19h30
Local: Hall do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco
Endereço: Avenida Dezessete de Agosto, 2187, Casa Forte, Recife/PE
Preço do livro: R$ 60,00 (impresso)
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