Proteção do patrimônio cultural marca abertura da 2ª Semana Estadual da Capoeira

Abertura Semana Capoeira | Crédito Silla Cadengue - Fundarpe

 Realizado por Fundarpe e IPHAN, evento aberto na última segunda-feira (18) apresenta Plano de Salvaguarda da Capoeira, com diretrizes para preservar essa manifestação cultural


Em tom celebratório e memorialístico, a abertura da 2ª Semana Estadual da Capoeira reuniu, na segunda-feira (18), capoeiristas e o poder público para começar as discussões sobre a preservação e a continuidade dessa manifestação cultural em Pernambuco. A abertura, realizada no Teatro Arraial Ariano Suassuna, contou com roda de capoeira, falas de mestres e uma conferência que resgatou a importância e a trajetória de construção do Plano de Salvaguarda da Capoeira em Pernambuco – documento cuja divulgação é o destaque desta edição do evento. A programação completa da Semana está disponível aqui.

O Plano de Salvaguarda é um instrumento que reunirá diretrizes diversas para proteção e visibilidade das práticas e dos saberes envolvidos na capoeira no Estado. Ele foi construído pela comunidade capoeirista em processos de escuta e diálogo conduzidos em todo o Estado pelo Governo de Pernambuco, por meio da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), em parceria com o IPHAN-PE. As duas instituições são as realizadoras da 2ª Semana Estadual da Capoeira. 

A salvaguarda é um instrumento de gestão elaborado pelo poder público e pela comunidade, feito para mapear a continuidade de uma manifestação cultural – neste caso, a capoeira em Pernambuco. As formas de salvaguardar um bem imaterial podem ir desde a ajuda financeira a detentores de saberes específicos com vistas à sua transmissão, até, por exemplo, a organização comunitária ou a facilitação de acesso a matérias-primas. As demandas, possíveis soluções e formas de fiscalização são construídas pela comunidade que detém o bem cultural (os capoeiristas) em diálogo com o poder público, e são organizadas em um Plano de Salvaguarda. No Estado, a construção ocorreu por meio de eventos presenciais do Sertão ao Litoral, os Fóruns para a Salvaguarda da Capoeira (de dezembro de 2025 a março de 2026), e de uma consulta pública online disponível para participação durante todo o mês de abril. O Plano será apresentado nesta quinta-feira (21).

Por esses motivos, o Plano esteve presente em todos os momentos da abertura da Semana. “Nossa missão aqui é validar o Plano construído por vocês com o auxílio da Fundarpe. A programação foi construída por vocês e devemos juntar forças para facilitar a continuidade da capoeira. Estamos aqui para fortalecer e dar visibilidade a esse bem cultural”, afirmou a presidente da Fundarpe, Renata Borba. “É preciso parabenizar os capoeiristas por terem comparecido e ao Governo do Estado por ter escutado a comunidade e construído o Plano. Mesmo antes do Plano, já tínhamos nos organizado e criado, em 2018, o Conselho de Mestres e Mestras da Capoeira, que precisa ser fortalecido”, pontuou Mestre Danoninho, da Associação Capoeira Rabo de Arraia. “O Plano é um momento de reflexão importante sobre patrimônio, principalmente para podermos avançar na proteção da capoeira. É preciso respeitar quem faz a capoeira todos os dias. Que as ações do Estado possam dar visibilidade e quebrar os preconceitos que ainda existem contra a capoeira”, declarou Mestra Bel, do Centro de Capoeira São Salomão. Na ocasião, a Escola de Capoeira Angola Ifé, liderada pelo Mestre Baygon, apresentou-se ao público, realizando uma roda de capoeira.

MEMÓRIA – A abertura da Semana contou com conferência de Giorge Bessoni, coordenador-geral de Educação, Formação e Participação Social do IPHAN, que fez um panorama sobre a importância histórica da capoeira, destacando seu apelo musical, poético, cênico e filosófico. Lembrou que as discussões da Salvaguarda da Capoeira em Pernambuco remontam a 2014 e que o Plano, enquanto processo inclusivo e participativo, não finaliza a Salvaguarda dessa manifestação cultural. “A finalidade desse cuidado é a sustentabilidade cultural, ou seja, que se torne possível aos mestres garantir a perpetuação da capoeira de maneira autônoma”, pontuou Bessoni. Também apontou a necessidade de que a Salvaguarda deve ser fruto de uma articulação entre os poderes municipal, estadual e federal, para aplicação mais eficaz das diretrizes. Ainda lembrou os limites do Plano de Salvaguarda: “Por exemplo, há uma demanda antiga dos mestres de capoeira para que seu ofício seja reconhecido como profissão. Isso pode constar no Plano, mas órgãos de cultura não têm poder para realizar isso, que é um poder do Legislativo e do Ministério do Trabalho”, afirmou. Ele citou a importância de ampliar o uso da capoeira como instrumento de educação patrimonial, “a capoeira como elemento de conscientização social sobre a história dos lugares onde ela ocorre”.

PROGRAMAÇÃO – A 2ª Semana Estadual da Capoeira começou no último domingo (17), com exibição de filmes no Cinema São Luiz. Nestas terça (19) e quarta (20), haverá atividades de capoeira na EREM Santo Inácio de Loyola (Olinda) e na EREM Delmiro Gouveia (Recife), além de 4 oficinas – entre elas, uma de formação em editais de fomento para capoeiristas e outra de escrita criativa, a fim de auxiliar os participantes a compor materiais escritos para integrar a versão publicada do Plano de Salvaguarda.

O Plano de Salvaguarda será divulgado no dia 21, em dois horários: de 13h30 às 17h, no Mercado Eufrásio Barbosa (Olinda), e das 19h30 às 21h em videoconferência promovida pelo IPHAN. “Vamos apresentar o Plano à comunidade da capoeira desta forma por pensarmos na regionalização. O Plano foi construído com contribuições de capoeiristas de todo o Estado, vários dos quais não estarão no Recife. Então, a apresentação online contempla esse público e também os interessados que não poderão comparecer ao evento presencial no Mercado Eufrásio”, explica a Superintendente de Patrimônio Imaterial da Fundarpe, Jacira França.

Na sexta-feira (22), um cortejo no Sítio Histórico de Olinda levará capoeiristas e demais interessados da Praça do Carmo até o Alto da Sé, com apresentações da Orquestra Recife de Berimbau. “Vamos passar por lugares de memória relacionados à capoeira, resgatando questões próprias da história da capoeira e pontuando a importância dela para a existência de outras manifestações culturais”, diz a Superintendente de Patrimônio Imaterial da Fundarpe. No mesmo dia, no Recife, uma palestra com os mestres Índio e Baygon abordará a capoeira como prática antirracista.

A Semana Estadual da Capoeira será encerrada no dia 23 (sábado), com uma vivência e caminhada no Centro do Recife, passando pelo Mercado de São José, Pátio do Terço e Pátio de São Pedro. “É uma culminância de celebração. Envolve uma roda de capoeira que existe há cerca de 20 anos no Centro, e é uma demanda dos capoeiristas a ocupação da rua. A capoeira é da rua”, finaliza Jacira França.


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