SUBMERSOS: EXPOSIÇÃO DE SÍLVIO ZANCHETI NA ARTE PLURAL GALERIA

Sílvio Zancheti traz, em sua exposição, reflexão poética sobre tempo, espaço e paisagens em transformação

O Sertão vai virar mar? Como podemos medir o tempo? Desde a última terça-feira, 03 de março, a exposição “Submersos” convida o público a atravessar paisagens que existem entre o real e o imaginado, onde o mar e sertão, tempo e memória, presença e ausência coexistem como experiências sensíveis e simbólicas. A mostra do artista Silvio Mendes Zancheti, com participação do artista dialogante Marcelo Silveira, tem visitação gratuita na Arte Plural Galeria, Recife Antigo, até 25 de abril.  

As obras têm origem em duas referências poéticas que orientam a construção conceitual e visual da exposição. A primeira é o verso “O sertão vai virar mar / E o mar virar sertão”, presente na obra de Glauber Rocha e associado ao filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, que sugere uma transformação contínua entre paisagens e significados culturais. A segunda referência vem do poeta W. H. Auden, no verso “O tempo são centímetros / E mudanças de alma”, evocando a percepção subjetiva do tempo a partir das experiências emocionais.

“Procuro associar as imagens do Sertão à ausência do tempo e as do mar às ausências do espaço. Uma foto do sertão (ou qualquer outro lugar) é sempre uma fatia do espaço/tempo (Einstein) onde o tempo não tem sentido, pois é uma medida, e só resta o espaço. No mar, o movimento contínuo, faz quase o tempo dispensar o espaço. Essas duas situações têm profundas implicâncias com os nossos sentidos e com os significados percebidos por meio das pinturas”, explica o artista.

A exposição também aborda a dimensão afetiva da temporalidade. A partir da reflexão proposta por Auden, as obras sugerem a tentativa de suspensão do tempo diante da iminência da perda ou da mudança, evocando uma melancolia que é, ao mesmo tempo, pessoal e social. O conjunto revela uma sensibilidade voltada à inevitabilidade da passagem do tempo e à forma como ela se inscreve na experiência contemporânea.

“O verso de W. H. Auden me sugere que quando estamos na iminência de perder um amor, o tempo pára e tenta voltar ao momento passado. Isso indica que não tenho certeza se minha pintura tenha refletido algo verdadeiro em termos “científicos”. Só sei que, refletindo sobre todo o conjunto de obras da exposição, senti que tinha pintado uma espécie de melancolia social e pessoal que expressa uma inevitabilidade face à passagem do tempo. Será que quis fazer o tempo parar? Será reflexo dos tempos em que vivo?”, indaga.

Do ponto de vista técnico, Zancheti trabalha diretamente com a materialidade da imagem digital. Suas composições são construídas a partir da manipulação dos pixels, com uso de máscaras de cor, sobreposições e diferentes processos de colorificação. Esses procedimentos aproximam a prática digital dos gestos tradicionais da pintura, reafirmando o fazer artístico como um processo de construção visual e conceitual.

A realização da exposição contou com o acompanhamento do artista Marcelo Silveira, que atuou como interlocutor crítico ao longo de um ano. Em um processo de diálogo contínuo, Silveira contribuiu para a reflexão sobre os aspectos plásticos e conceituais das obras, respeitando sua materialidade e aprofundando a interpretação visual das referências poéticas que estruturam o trabalho.

SERVIÇO

Exposição: Submersos

Artista: Silvio Mendes Zancheti

Artista dialogante: Marcelo Silveira

Local: Arte Plural Galeria - Rua da Moeda, 140, Recife Antigo. 

Período: 3 de março a 25 de abril de 2026

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