Inteligentes ou não, carros não são a solução para o trânsito
historiadores da indústria automotiva do mundo, apresenta crítica à ilusão de que a tecnologia resolverá a mobilidade das cidades. Apresentação do livro contará com evento e ações de mobilidade nos dias 27 e 28 de outubro na zona Sul da cidade
Nos próximos dias 27 e 28 de outubro, o historiador estadunidense Peter Norton lançará no Recife o seu livro AUTONORAMA: uma história sobre carros “inteligentes”, ilusões tecnológicas e outras trapaças da indústria automotiva.
A obra apresenta uma crítica sólida à promessa ilusória da tecnologia de ponta como solução para o trânsito das cidades. 
Foto Peter Norton
Com um texto fluido em que combina tiradas bem-humoradas com argumentos bem embasados, o autor explicita o absurdo de seguir investindo recursos, tempo e energia em falsas soluções para viabilizar o rodoviarismo nas cidades.
A apresentação do livro em Recife faz parte de uma rodada de lançamentos, que ocorrem também em Belo Horizonte e São Paulo, pela Fundação Rosa Luxemburgo, sediada em São Paulo. Em Recife, a produção e organização ocorre em parceria com a Bigu Comunicativismo, e apoio da Livroteca do Pina, Ação Comunitária Caranguejo Uçá, Ameciclo e Grupo Mulher Maravilha.
Lançamento, distribuição de livro e barqueata
A apresentação do livro ocorrerá em dois eventos. No dia 27 de outubro, Peter Norton realizará o lançamento da publicação na Livroteca do Pina, no bairro de Brasília Teimosa, zona Sul, a partir das 18h. A noite contará também com o comentário sobre o livro por membro do Observatório de Mobilidade de Salvador (ObMob Salvador), falas políticas sobre mobilidade ativa, vertical e fluvial pela cidade e apresentações artísticas. O livro terá distribuição gratuita e mesa de autógrafos com o autor.
No segundo dia, 28 de outubro, a programação continuará com uma barqueata saindo e retornando para a Ilha de Deus, também zona Sul da capital, com um trajeto que reflete as estratégias de vivências, trabalho e mobilidade de comunidades tradicionais pesqueiras e ribeirinhas a partir das águas dos rios e das marés. A saída será a partir das 10h, com almoço na Ação Comunitária Caranguejo Uçá, e posterior bate papo aberto com o autor. Todas as ações serão abertas ao público e gratuitas.
“Enquanto estamos sonhando e viajando com carros futuristas e autônomos, temos aqui do nosso lado um metrô extremamente sucateado e beirando à privatização, a situação dos BRTs e as estações abandonadas, um transporte de ônibus que não se sustenta e que não atende as demandas mínimas de dignidade e direito ao transporte e mortes absurdas de pedestres e ciclistas. Essas são questões urgentes, que precisam ser discutidas antes de pensarmos em novos carros como a solução. Por que não pensamos as tecnologias para resolver essas pautas?”, provoca Emerson da Cunha, membro da Bigu Comunicativismo e parte da organização do evento.
Sobre o livro Autonorama
Com habilidade, em Autonorama, Peter Norton questiona os limites de carros ditos “inteligentes”, que prefere nomear como carros automatizados, programados para obedecer a comandos prévios e não para pensar propriamente. Lembrando que, mesmo que seja possível contornar limitações técnicas para que tais veículos circulem com segurança nas cidades, ainda assim não é viável imaginar cidades com sistemas de trânsito organizados a partir de automóveis (inteligentes ou não), destacando desde a limitação de recursos naturais para produzir e abastecer tais veículos, quanto à falta de espaço para que todo mundo circule dessa maneira.
Elencando preocupações urbanísticas, ambientais e econômicas, ele desmonta toda a argumentação fantasiosa em favor de soluções mágicas para o trânsito e convida a repensar prioridades. Melhor investir em transporte coletivo e mobilidade ativa do que seguir insistindo em viabilizar a mobilidade motorizada privada, defende, em uma análise que vale tanto para criticar tanto o rodoviarismo nos Estados Unidos, quanto em outros países que seguiram o mesmo caminho de priorizar carros em detrimento do transporte coletivo, como o Brasil.
Resgaste histórico
Peter Norton, professor do Departamento de Engenharia e Sociedade da Universidade da Virgínia, dos Estados Unidos, é um dos principais historiadores da indústria automotiva do planeta. No livro, traduzido no Brasil em uma coedição da Fundação Rosa Luxemburgo e da editora Autonomia Literária, ele faz um levantamento sobre os ciclos de promessas das fabricantes pensados para manter um horizonte de esperança de que, um dia, a mobilidade organizada a partir de automóveis será viável.
Relembra que não é a primeira vez que carros sem motoristas são anunciados e detalha como novas fantasias são criadas sempre para preencher o espaço deixado pela frustração com as anteriores. Desenha, assim, ciclos em que expectativas em relação às inovações se dissolvem sempre em fumaça, buzinas e congestionamentos.
Os eventos no Recife são parte da turnê do autor no Brasil, que inclui também atividades em São Paulo e em Minas Gerais, com visitas e palestras a universidades e encontro com movimentos sociais. Com seu olhar crítico sobre falsas promessas da tecnologia, o autor contribui com um olhar mais amadurecido sobre possibilidades e caminhos para pensar a questão e, mais que isso, alerta para o risco de se perder em um horizonte inviável de carros voadores, automatizados ou eletrificados.
Seu trabalho tem, inclusive, uma dimensão ambiental – ele destaca que, mesmo substituir a fonte de combustível por soluções mais limpas não é a solução final. É importante, mas não basta eletrificar toda a frota para salvar o trânsito. Mais do que transição energética, precisamos de uma transição modal, organizando melhor o transporte de pessoas e mercadorias e minimizando o desperdício hoje materializado em SUVs gigantes transportando apenas uma ou duas pessoas.
A obra é a segunda de Norton. Na primeira, intitulada Fighting Traffic the Dawn of the Motor Age in the American City*, publicada pelo MIT Press, o autor apresentou levantamento detalhado sobre como as redes de transporte sobre trilhos foram desmontadas a partir do lobby de fabricantes de automóveis e como a rua, antes um espaço público com livre trânsito para todos, incluindo crianças e animais, tornou-se terreno para automóveis circularem em alta velocidade – em uma lógica que também se repetiu no Brasil no último século.
A versão em português conta com um texto de apresentação para a edição brasileira escrito pelo autor, um prefácio de Roberto Andrés, urbanista e professor da Universidade Federal de Minas Gerais, e um posfácio de Joyce Souza, pesquisadora do Laboratório de Tecnologias Livres da Universidade Federal do ABC.
ERVIÇO
Lançamento do livro Autonorama - uma história sobre carros “inteligentes”, ilusões tecnológicas e outras trapaças da indústria automotiva (Coed. Fundação Rosa Luxemburgo/Autonomia Literária), de Peter Norton*
Gratuito, aberto ao público
DIA 01 - 27/10
Local: Livroteca Brincante do Pina
18h - Cine Bode Expiatório
19h - Poesia e boas vindas de Kcal, coordenador da Livroteca Brincante do Pina
19h05 - Provocações
Mobilidade Vertical (Grupo Mulher Maravilha) - A confirmar
Mobilidade Fluvial (Caranguejo Uçá) - Edson Fly
Mobilidade Ativa (Ameciclo) - Gaia Lourenço
19h20 - Rap MC Alaka
19h25 - Apresentação do livro pelo Peter Norton
19h40 - Comentários do ObMob Salvador - Mobilidade como direito social para todas as pessoas
19h50 - Debate aberto
20h30 - MC Banzai
20h35: Distribuição dos livros, mesa de autógrafos e encerramento com Bando Pé de Bode
DIA 02 - 28/10
Local: Ação Comunitária Caranguejo Uçá (Ilha de Deus)
9h30 - Acolhimento
10h - Passeio de barco pelo Recife
11h30/12h - Almoço na Ilha de Deus
14h - Passeio pela Ilha de Deus
14h30 - Roda sobre a experiência
15h30 - Grupo Percussivo Nação da Ilha
Endereços:
Ação Comunitária Caranguejo Uçá - Rua São Geraldo, Nº 96, Imbiribeira, Recife - PE
Livroteca Brincante do Pina - Rua Artur Lício, 332, Pina, Recife - PE

Comentários
Postar um comentário