Entrevista: Raul Lody
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| Raul Lody. Foto: Fred Jordão |
Por Gianfrancesco Mello
Raul
Geovanni da Motta Lody nasceu no Rio de Janeiro e, com o tempo, tornou-se
antropólogo, museólogo e professor, além de responsável por vários estudos na
área das religiões afro-brasileiras, sobretudo na Bahia. Formou-se em
Etnografia e Etnologia pelo Instituto de Antropologia da Universidade de
Coimbra, tendo posteriormente se especializado no Laboratório Etnográfico da
mesma Universidade e ainda no Instituto Fundamental da África Negra, em Dakar.
Lody ainda fez doutorado em Etnologia pela Universidade de Paris e é membro da
Academia Brasileira de História, da Academia Brasileira de Belas Artes e do
Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.
Há
40 anos, o antropólogo escolheu o Nordeste como campo de trabalho. Suas
pesquisas antropológicas com interfaces entre a culinária e as religiões mais a
sociedade o levaram para uma das principais encruzilhadas de discussão: o valor
patrimonial da comida. A questão ganhou tamanha relevância que, para assegurar
a integridade dos saberes e das práticas tradicionais culinárias, a Unesco
incluiu, em 2010, a comida à lista de Patrimônio Imaterial da Humanidade. Ele
também esteve engajado no reconhecimento das baianas de acarajé como patrimônio
imaterial do Brasil e da cozinha de Michoacán, como patrimônio do México. Neste
século em que a comida e as práticas culinárias são temas de crescente
interesse entre os mais diversos segmentos, Lody contribui para a discussão e
aprofundamento do tema. Com residência fixa no Recife, Raul Lody conversou com
o repórter Gianfrancesco Mello sobre o início da sua carreia, suas experiências
nesses 40 anos e seus futuros projetos.
Agenda Cultural - Como começou seu interesse pelas artes?
Agenda Cultural - Como começou seu interesse pelas artes?
Raul Lody - Desde pequeno, eu fui envolvido com as artes. Minha mãe era formada em Belas Artes e o meu pai era empresário de montagem de laticínios nos anos 1940 e 1950, em Minas Gerais. Tenho até hoje o catálogo promocional com todos os produtos que minha família comercializava. Então, com essa veia artística familiar, não tinha como não seguir na área artística.
AC - Como os seus trabalhos são desenvolvidos?
RL - Sempre trabalhei muito com diferentes mídias. Sou ilustrador e o texto chega à minha mente como consequência natural de uma construção. Nos ano de 1970, por exemplo, fotografei muito e só parei com o excesso quando percebi que eu fotografava para os outros e não pelo simples ato de fotografar. Nos trabalhos de audiovisual, usei e uso uma metodologia contemporânea e puxo demais para o lado da tecnologia tradicional. Nas minhas obras, utilizo três importantes temáticas: o artesanato popular; a forma expressiva da matriz africana; e a metodologia da alimentação. Enfim, sempre estou publicando algo seja por meio de livros, documentários...
AC - No decorrer da sua carreira, você viajou por muitos lugares e tem um currículo invejável. Quais desses lugares e trabalhos você destacaria?
RL - Em 1972, viajei ao Senegal e desenvolvi trabalhos por intermédio do Instituto Fundamental de Arte Negra (IFAN). Em Dakar, com 21 anos, fui avaliar uma polarização de acervos étnicos. Passei também por Coimbra, Lisboa e algumas colônias portuguesas. Em 1978, criei o projeto de Arte Popular da Funarte. Fiz parte também da inauguração da arte popular ligada à representação cultural, que resultou em centros regionais de memória. Cheguei a publicar uma série de 10 livros, intitulada Artesanato brasileiro. Ainda em 1978, publiquei meu primeiro livro que falava sobre comida Santo também come, que é prefaciado pelo sociólogo Gilberto Freyre. Entre minhas principais pesquisas dedicadas ao patrimônio material e imaterial estão: Dicionário de arte sacra e Técnicas afro-brasileiras, este último com quase 1,5 mil verbetes. Também publiquei vários trabalhos sobre a cozinha do Recôncavo Baiano, livros sobre o azeite de dendê, entre tantos outros. Publiquei livros como, por exemplo, Coco. Comida, cultura e patrimônio e Histórias, cultura e gastronomia da cana sacarina no Brasil, com 1,2 mil verbetes dedicados às boleiras de Pernambuco. Sou autodidata em desenho, lancei em dezembro de 2011, no Museu de Arte Popular, a exposição Antropólogo ilustrador, com uma retrospectiva de meus desenhos e ilustrações. Passei 18 anos organizando um material sobre 18 museus e publiquei um livro por coleção. Tenho ainda uns trabalhos muito legais com temas africanos para o público infantil.
AC - Falando nos seus livros, como a alimentação se localiza entre os estudos da cultura humana?
RL - É um tema clássico e cada vez mais ampliado com a questão midiática. Cada vez mais você vê artigos sobre comida, documentários, programas de TV... A comida é uma grande interlocução para entender a cultura. Ela é um dos temas que oferecem maior possibilidade de conhecer diferentes formas culturais. E a maioria dessas manifestações é vocacionada para o turismo. A gastronomia é um campo muito minado. Um dos temas mais importantes discutidos hoje é a necessidade de agregar à comida o seu valor cultural. Essa valorização é crescente e desde o início dos anos 2000 começamos a desenvolver no mundo uma política internacional dos sistemas de patrimônio imaterial, ou seja, que contempla música, dança, teatro, cinema, saberes e comida. E conseguimos desenvolver no Brasil a primeira patrimonialização nacional, pelo IPHAN, que é o ofício das baianas de acarajé – um trabalho importantíssimo. Esse é o primeiro patrimônio nacional na área de comida. Já internacionalmente, temos o patrimônio da humanidade, chancelado pela Unesco e no ano passado tivemos três registrados: a cozinha mediterrânea – reunindo parte da França, Grécia, Itália, Espanha, Tunísia e Marrocos; o hábito familiar de comer dos franceses; e a cozinha de Michoacán, no México. A comida tem um elemento de resistência muito forte.
AC - Como se dá esse processo de patrimonialização. Exceto o das baianas do acarajé, há outros casos no Brasil?
RL - A patrimonialização é um processo cuidadoso, não se patrimonializa qualquer coisa, são feitas pesquisas, dossiês e documentação, pois se trata de um processo complexo. No Brasil, patrimonializou-se como comida o ofício das baianas de acarajé, que coordenei, e também três tipos de queijos em Minas Gerais, entre eles, os queijos do Serro e Canastra, que envolveu mais de 30 mil produtores artesanais. E depois foi patrimonializada uma técnica de agricultura dos índios do Rio Negro, no Amazonas. A chancela do patrimônio na verdade é um selo de reconhecimento, um selo de terroir (expressão de origem francesa que significa que foi feito em determinado local sob tais condições). Isso ajuda o mercado, a comercialização, e tem repercussões importantes em termos culturais, mas sobretudo pela visibilidade e pelo reconhecimento. Quando um bem é patrimonializado pela Unesco é o céu, porque é um bem que passa a ter uma apropriação simbólica da humanidade.
AC - Já entendemos a sua aproximação com o Nordeste. Mas e com o Recife, como foi?
RL - Vim a passeio em 1968. Isso porque minha família sempre teve o costume de viajar nas férias. Quando cheguei aqui, foi paixão à primeira vista. Eu tinha 17 anos e conheci muitos restaurantes, bares... Ou seja, tive uma empatia muito forte com esta cidade e comecei a vir umas três ou quatro vezes ao ano. Lembro que tinha uma caldinho de feijão delicioso no Bairro do Arruda, que ficava em um filtro de barro e isso marcou profundamente a minha memória. Bom, estou com residência fixa no Recife há seis anos. Aqui, leio diariamente e, aos domingos, pela manhã, logo cedo, passeio pela cidade para olhar a arquitetura local.
AC - Você também passou um bom tempo no Ceará. Qual foi o trabalho que você desenvolveu por lá?
RL - Fiz um mapeamento da comida do Ceará. Foram mais de 40 mil fotos por um viés ‘museológico’ para montar uma exposição sobre comidas tradicionais. Falei também da comida de fronteira entre Crato, no Ceará, e Exu, em Pernambuco. Também fiz uma vasta pesquisa sobre as comidas do Maranhão. Faço tudo isso porque me considero um antropólogo militante, pois trabalho por causas e através do olhar do desenvolvimento. Enfim, os projetos do Ceará estão em andamento e são de longo prazo (risos).
AC - Ao todo, de 1972 até o ano passado, foram 645 trabalhos em 40 anos de carreira. O que os seus apreciadores podem esperar mais?
RL - Fidelidade ao tema, além da minha constante e feliz descoberta, pois é muito legal você perceber que há tanto ainda por fazer. Tenho cerca de 1,2 mil recortes de jornais que me dão subsídios para eu fazer ainda mais uma publicação.




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